Acervo da Cachola: Florbela Espanca

segunda-feira, abril 26, 2010

















Florbela Espanca tem sido considerada muito justamente a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos, e produto duma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro diário íntimo onde a autora extravasa as lutas que travam dentro de si tendências e sentimentos opostos. Trata-se duma poesia-confissão, através da qual ganha relevo eloquente, cálido e sincero, toda a angustiante experiência sentimental duma mulher superior por seus dotes naturais, fadada a uma espécie de donjuanismo feminino. 

A poetisa, como a desnudar-se por dentro, sem pejo ou preconceito de qualquer ordem, põe-se a confessar abertamente suas íntimas comoções de mulher apaixonada. O modo como procede, a temperatura da confidência amorosa, os reptos e os fulgores duma paixão incontrolável e escaldante, só encontra semelhança nas Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado. Aliás, a semelhança entre elas é muito Maior do que parece, quanto mais não fosse, porque ambas eram alentejanas... A trajetória poética de Florbela inicia-se sob a égide de António Nobre, seja nos versos que vão compor a juvenilia, seja no Livro de Mágoas: esteticismo, narcisismo e culto literário da Dor: "Poeta da Saudade, ó meu poeta q'rido", "ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos", "os males d'Anto toda a gente os sabe! ". Fase tateante ainda, mas onde já se vislumbra o encontro dum caminho autentico, duma dicção poética pessoal e forte. 

Com o Livro de Sóror Saudade, Florbela se encontra definitiva mente enquanto poetisa: o soneto, descoberto como a forma ideal para se exprimir, passa a ser largamente cultivado, embora sob a influência sensível dos sonetos anterianos. Conquistava, assim, o veículo que melhor lhe permitia confessar o drama íntimo, numa forma cada vez mais cuidada e límpida. Seu drama amoroso amadurece e desenvolve-se-lhe a expressão correspondente. Erótica e emocionalmente insatisfeita, sofre porque a sociedade não lhe compreende o conflito íntimo e a escorraça por querer a realização de apetências que catalogam de imorais, sem lhes compreender o alcance e a altitude. Mais, porém, que a hipócrita condenação social, faz sofrer à poetisa a ausência dum "outro", ou melhor, do "Outro", para satisfazer-lhe a ânsia dum amor mais forte que a vontade e as convenções burguesas: "O amor dum homem? - Terra tão pisada, / Gota de chuva ao vento boloiçada... / Um homem? - Quando eu sonho o amor dum Deus!... ". Uma tão obsessiva e poderosa capacidade de amar, sendo incorrespondida, derrama-se na Natureza, originando poemas de tons panteísticos logo transformados em melancólica ternura pela terra-mãe, por Évora, pelos lugares da adolescência e por ela própria. Exaustos de suplicar um amor integral, seus sentidos pedem o repouso no solo de onde ela recebeu toda a demoníaca força que lhe vai nas entranhas. A Morte, agora, põe-se a substituir seu anseio de Vida: "Deixai entrar a Morte, a iluminada, / A que vem para mim, pra me levar, /Abri todas as portas par em par / Como asas a bater em revoada." Está-se na fase derradeira da poesia de Florbela, representada pelos sonetos de Charneca em Flor e Reliquae: embora menos impressionante e comovente como estado confessional, pois o relativo apaziguamento da luta interior vem acompanhado de renúncia e prostracção, corresponde ao ápice artístico de sua carreira de poetisa. 

Seus sonetos atingem agora um refinamento raro e uma imediata força comunicativa, próprios duma sensibilidade que subtilizou o amor a pouco e pouco até assumir uma olímpica resignação de quem traz "no olhar visões extraordinárias", e só tem "os astros, como os deserdados... ", passando por efémeros momentos de realização amorosa, numa plenitude que a leva a confessar ao Outro: "Dentro de ti, em ti igual a Deus!... ". Em matéria poética expressa em vernáculo, outra voz feminina igual não se ergueu até hoje.

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