Aqui...

segunda-feira, junho 07, 2010



Na superfície branca do deserto na atmosfera ocre das distâncias no verde breve da chuva de Novembro deixei gravado meu rosto minha mão minha vontade e meu esperma; prendi aos montes os gestos da entrega cumpri as trajetórias do encontro gravei nas águas a fúria da conquista da devolução do amor. Os calcários e os granitos desta terra foram por mim pesados. 

Dei-lhes afagos leves olhares insônias longas impacientes esperas. O zinco dos telhados cobriu-me solidões e esperanças que tu sabes. Esperei por ti Bordei-te flores nos canteiros do céu abri-te valas, semeei-te milhos pari colheitas de searas vãs abri os dedos, semeei calhaus. Espremi a terra e fiz-lhe água nascente povoei prados de criaturas doces ergui torres, girassóis gigantes dei vida e morte, vi nascer, morrer. 

Aqui reinei, julguei, plantei videiras caminhos, grutas de vestígios colhi olhares de animais bravios deixei aos dedos aladas liberdades. Empilhei madrugadas de atenção disparei molas, carabinas frias de traição ao vento. Combati silêncios, instalei trincheiras de perdão. Recebi recados de mongólias vastas acendi fogueiras para sufocar o medo. Aqui sonhei europas, verdes ásias cidades de cristais, antárdidas caiadas daqui refiz a lua de astronautas; contei estrelas colhi algumas para dormir com elas. 

Aqui ejaculei delírios verdes que a madrugada insinua e vence. Aqui colhi primícias de virgens escandinavas e coroei outeiros e o meu sexo com as suas tranças de ouro. Saltei de monte em monte e naveguei o ventre do deserto assinalei o umbigo do mundo e plantei setas apontando o sexo fundo da terra. Beijei a carne universal e úmida de uma fêmea em cio, menstruada. Aqui me dei, aqui me fiz desfiz, refiz amores. Aqui me embebedei e vomitei o espanto. Daqui abalo hoje, parido para o nada apalpo a água afago um bicho ordeno qualquer coisa e vou. 

 Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

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