Ave Palavra

quarta-feira, junho 08, 2011

O início era a Palavra, verbo que se fez chama. E o frio tornou-a terra e ar pleno de vapores e águas evoladas. As vozes primevas vieram do mar, gozo de almas fecundadas pelo lume do sol. Então, a Palavra pôs a roca do tempo a girar seu fuso dourado por fios a se partirem e a formar outros vindos de outrem enquanto vida ali houvesse. Os seres evoluíram nas terras, oceanos, ares e éteres. O planeta tornou-se verde de luxuriantes florestas, alvo de neve e nuvem, amarelo de areias tórridas, vermelho de barro amolecido, negro de fertilidades, azul de ares e mares refletidos: caleidoscópica nave a abrigar viajantes que nasciam, cresciam, geravam e ao nada retornavam por todos os seus poros e reentrâncias. A esfera terrestre circum-navegou milhões de vezes até que a Palavra enviou falanges de anjos para fecundar e serem fecundados por aqueles que seriam conhecidos pelos nomes de Mãe e de Pai. Uma nova raça formou-se e a boa nova foi levada nas asas dos ventos solares aos recantos mais longínquos do espaço e das dimensões. Mas – essa é a lei – toda a criação caminha para sua própria destruição e, assim como a vida pressupõe a morte, o Caos, ao saber do nascimento daquela nova raça, encheu-se de cólera e transportou-se ao planeta azul. Horrorizado, deparou-se com aqueles que manipulavam o fogo. Imerso em ódio, bradou: “- Malditos sejam os que dominam o fogo, pois têm, como destino, desvendar os segredos do Conhecimento!” Então, do incomensurável vazio que havia em seu próprio ventre, retirou o pai de todos os demônios e lhe disse: “- Medo, tu que és destruidor dos mundos, multiplica-te no coração deles, até que nada mais reste senão a areia que lhes cobre os pés”. Num átimo, Medo percorreu a Terra a conspurcar ventres e corações. A par desse infame trabalho, iniciou a geração de seus filhos e, ao fim de três sóis e quatro luas, havia se multiplicado em Orgulho, Luxúria, Avareza, Vaidade, Inveja e Preguiça que bailavam, em espirais ensandecedoras, na estranha melodia dos ossos e das serpentes. Foi então que nasceu a filha dileta do Medo, e Guerra alastrou-se pelo mundo com a velocidade da peste. Aqueles que matavam pela necessidade da fome encontraram prazer ao ver o sangue dos seus irmãos. Filhos voltaram-se contra seus pais, mães afogaram suas proles nos rios, tribos inteiras arderam em chamas enquanto outras festejaram sobre os cadáveres dos seus inimigos. Não se sabe quantas vezes o sol assistiu ao morticínio, mas, ao fim de muitos ciclos, somente os Homo Sapiens Sapiens sobreviveram ao conflito. O Caos que, ao lado da Palavra, assistia com prazer ao triste espetáculo, antevia a sua vitória quando, de súbito, um raio de compaixão atingiu o globo inteiro. A Palavra fez-se ave pleniluminada e penetrou na garganta e no ouvido dos que ainda respiravam. Eles começaram a falar e a compreender os lamentos de seus irmãos. De suas bocas, começaram a sair os demônios através de recém criados vocábulos, frases, orações, períodos que traduziam suas dores e lhes aliviavam os corações. A Guerra, então, recolheu-se ao ventre de seu pai. Os anjos já festejavam o triunfo da Palavra, quando o Caos vociferou aos sobreviventes: “- Dentro vós, malditos, Medo e seus filhos criaram um vazio que, em vão, tentareis ocupar com os prazeres e dores do mundo. Os demônios hão de vos espreitar nas sombras, confundir-vos-ão com as falas dos falsos profetas e semearão a mim, o Caos, em vossos corações. Então Guerra há de vos dizimar até a extinção de todos os vossos filhos!” A Palavra deixou que o Caos se manifestasse e, após, fez-se ouvir, qual a brisa que antecede a primavera: “- Eu sou a vida que há em vós, posto que tendes, através de mim, o poder de expulsar o mal do mundo e das dimensões. O vazio que os demônios criaram em vossos peitos, nomeai-o Desejo. Por conta dele, experimentareis sofrimentos e, a partir de hoje, transmiti-lo-eis aos vossos descendentes. Multiplicai-vos, até que possais retornar ao meu convívio sem portardes os demônios e o vazio do Caos.” E assim os homens receberam o dom de materializar o éter dos sentidos e dos sentimentos através dos vocábulos. Depois disso, Guerra voltou milhões de vezes do ventre do Medo e separou os homens em bandeiras, línguas, raças, credos e poderios – civilizações nasceram, resplandeceram e pereceram qual gotas de luz na escuridão. Assim será até que a Palavra expulse o Caos que há em nós. Anderson F. Brandão é professor universitário, contista e ensaísta.

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