As vantagens de ser coisa

quinta-feira, julho 14, 2011

Tenho um anúncio para fazer. Doo meu apartamento. São três quartos, uma suíte, sala, cozinha, garagem. O prédio não é de luxo, mas próximo ao centro. Das janelas veem-se o norte eo sul, o nascer e o pôr-do-sol. O piso de taboão descola-se em alguns aposentos, mas reformo antes da entrega. Deixo montados móveis sob medida, quase novos. Sem ônus. Quem levar o apartamento pode, se quiser, levar também meu carro. Não tem bancos de couro, mas é "pegador", como diz a gurizada. Foi segurado há dois dias, sem multas e com os impostos quitados. Deixo na garagem do apartamento com a chave na ignição. Quem aceitar o apartamento e o automóvel poderá, se quiser, ganhar de brinde a televisão, o aparelho de som, o computador e os móveis da sala. Quase novos. Quem achar pouco modernos poderá vendê-los. Valem uns bons trocados. Doo meus bens mais valiosos. Sob uma condição. O donatário deverá receber, como seus, minha mãe, meus irmãos e meus sobrinhos. Maria Eva tem 68 anos, é analfabeta, gosta de chimarrão e fala com sotaque caboclo. A todos chama de meu "fio", faz uma "abobra" assada que é uma delícia e um feijão e arroz numa panela só de tirar o chapéu. Mas só cozinha em fogão a lenha. Detesta apartamento - Não gosto de viver empoleirada,diz -, fala sempre muito alto, tem combinações próprias para as roupas, anda de chinelo e meias em qualquer estação. Quando me visita sente saudade do escarcéu das galinhas no amanhecer. Meus irmãos são nove, gente simples. Um trabalha com fumo, outro é garçom em São Paulo, outro é tratorista... Dezoito são meus sobrinhos. Se quiseres, manda-me um e-mail. Poderás levar meus bens com o compromisso de amar meus amados com um amor igual ou maior. Além da mãe, irmão e sobrinhos, doo, ainda, meus amigos. Gente finíssima. Aceitas? Não? Já sabia. Queres o apartamento, o automóvel, meus móveis e eletrodomésticos. Meus afetos, porém, a ninguém interessam. Esta é a diferença essencial estre coisas e pessoas. As coisas servem para todos, as pessoas para poucos. Um pai chorando. A filha foi morta na própria casa ao defender a mãe dos assaltantes. Vi na televisão. Descoberta feita: eu nunca sentirei falta da moça, ele nunca recuperará a perda. "Poderiam ter levado tudo, menos minha filha", dizia o pai. "Sou um homem trabalhador. Teria as coisas novamente. Exceto ela." Não pretendo me desfazer da mãe, irmãos, sobrinhos ou amigos. Mas se fores um ladrão ou sequestrador, pense. Eles serão inúteis pra ti. Retiro a condição. Fica com as coisas. Pessoas são únicas para únicos. Não nos faltarão os mortos no Iraque, a filha ou a mãe de Antonio sequestradas, nem a estudante que se encontrou com uma bala perdida. Sabemos é o valor da casa, do carro, dos móveis dos outros. De amores alheios, nada. O que fasso com a mãe do Jõao ou do Pedroda Silva? Mãe é só uma, já tenho a minha. O mundo não melhora porque os amados mortos só deixam vazios na vida dos outros. Até o momento em que nós seremos os outros. Então, será tarde. Percebes?

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