Lendo com todos os sentidos

quarta-feira, julho 13, 2011

Lê-se com os olhos, e também com o olfato, com o paladar, com o ouvido, com o tato. Com todo o corpo e não só com as partes “altas” privilegiadas pela hierarquia dos sentidos impostas pela tradição metafísica: os olhos e a mente […]. A tarefa de formar um leitor é multiplicar suas perspectivas, abrir suas orelhas, afinar seu olfato, educar seu paladar, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar um caráter. O único que pode fazer um professor de leitura é mostrar que a leitura é uma arte livre e infinita que requer inocência, sensibilidade, coragem e talvez um pouco de mau humor. NIETZSCHE Quando vemos um livro, dependendo do grau de intimidade com esse objeto, podemos bocejar, espirrar, suspirar. Mas a atitude majoritária é ignorar, pois o livro não está no imaginário do povo brasileiro e não faz parte do sonho de consumo da população. Os fatores são muitos para afastar o leitor do livro: falta de bibliotecas públicas bem equipadas, poucas livrarias no país, inexistência de programas na TV, rádio, internet que ajudem a formar leitores, livros com preços astronômicos e principalmente carência de mediadores de leitura que compreendam a Literatura como uma arte. Ler é uma atividade muito complexa e desenvolver o prazer da leitura, normalmente entendido apenas como entretenimento, não é uma tarefa fácil, pois requer conhecimento de autores, estilos e gêneros literários. Mas só isso não basta, se o mediador não tiver introjetado que a leitura precisa colocar em ação todos os sentidos humanos. TATO É preciso ler com dedos delicados, mesmo que às vezes seja necessário ler com os punhos. NIETZSCHE O tato sempre foi um sentido coberto de pudor e preconceito. As dificuldades com o próprio corpo se refletem na relação com o outro. Ele é instintivo, não racional, tanto que é o primeiro sentido desenvolvido no feto, que reage ao estímulo dentro do útero. E quem estuda o assunto diz que é o mais social dos sentidos humanos, pois dá a dimensão das coisas, refletindo o que vem do nosso interior. Basta lembrar da pele arrepiada ao ouvir uma declaração de amor. Porém, cada vez mais a sociedade vem colocando esse sentido em segundo plano, nesse novo mundo virtual. Para a leitura isso é um paradoxo, pois o ato de escrever começa a existir através dos dedos, seja na escrita à mão ou na digitação. Já para o livro é o sentido que promove a primeira ação educativa que fazemos com as crianças ao ensiná-las a virar as páginas, apurando a sensibilidade de seus dedos. Ato que se repetirá e refinará ao longo da vida. Também a falta de intimidade com o livro se mostra pelo tato, quando observamos alguém que não sabe de que maneira segurá-lo. E sua relação é tão profunda com a leitura que possibilita ao cego o acesso à literatura, através do método Braille. Só que é difícil encontrar nos livros imagens táteis descritas. Há visuais, auditivas, olfativas, mas raramente gustativas e táteis. E são as imagens que ajudam a construir lembranças. Que tal associar o tato a memória? Vamos imaginar que estamos numa livraria, caminhando pelos corredores a busca da seção dos livros que nos interessam, encontramos a prateleira, vemos as lombadas dos livros, letras variadas, cores diferentes. Fechamos os olhos e passamos as mãos pelos livros. Uma textura chama a nossa atenção. Pode ser áspera, lisa, aveludada. Puxamos o livro. Será leve ou pesado? Grande ou pequeno? Fino ou grosso? Está estabelecido o contato. Deveríamos considerar o objeto livro como um corpo que se toca. Tateá-lo, sentir a estrutura de suas páginas, criar intimidade com sua forma, manuseá-lo. Essa é uma boa maneira de começar um tórrido caso de amor. VISÃO Nascidos para ver, educados para olhar. GOETHE Os olhos são os grandes manipuladores dos sentidos, pois com eles vemos e compreendemos o mundo. Vamos decifrando os códigos e construindo juízos, percepções. E é a visão que faz o primeiro contato com o objeto-livro. Começamos observando a letra, as imagens, o projeto gráfico. Podemos apreender várias informações que ajudam a descobrir o tipo de leitura que vamos encontrar: capa, lombada, orelha,... Quanto a desvendar num objeto que a principio víamos apenas uma história! Mas os olhos também mentem e podem nos atrair para um livro apenas pelo seu aspecto visual ou nos afastar pelas quatrocentas páginas que contem. E a única possibilidade de saber se estamos enganados é conhecer seu conteúdo. No entanto, essa aproximação também pode ser periférica ou intensiva. E assim se define um leitor ou um momento de leitura que vai variar dependendo do material que temos em nossas mãos. Talvez o grande avanço e a maior dificuldade seja aprender a ler com olhos de leitor e escritor. É importante distinguir esse duplo olhar, pois quem lê só como leitor, que não é algo ruim, fica num nível primário de leitura. É fácil detectar a falta da experiência leitora pelos conhecidos e primários julgamentos: gostei muito do livro, achei interessante, não gostei. Mas isso não é suficiente. Para o pesquisador espanhol Victor Moreno é fundamental ler também como escritor: “Quem lê como escritor se verá obrigado a disciplinar seu olhar de um modo mais intenso, detendo-se naqueles aspectos que podem levá-lo a melhorar sua competência comunicativa, lingüística e sua educação literária”. OLFATO Mas também temos que saber cheirar as palavras, sermos capazes de captar seus aromas mais voláteis e mais dispersos. Saber distinguir o tipo de odor que as impregna: o cheiro de incenso, o cheiro de quartel, o cheiro de colégio. NIETZSCHE Nas primeiras semanas de vida, as imagens e os sons necessitam de significado e são os cheiros e o tato os principais estímulos que nos comunicam com o mundo. Mesmo assim o olfato sempre foi considerado um sentido modesto, de pouca importância, mas é o primeiro e último canal de comunicação com o meio externo, basta lembrar que quando nascemos é o ar que entra em nossos pulmões que promove a primeira manifestação de vida: o choro. E quando morremos, damos o nosso último suspiro. O cérebro tudo cheira, por isso o olfato este sempre carregado de lembranças: o bolo de chocolate da casa da avó, o perfume do primeiro amor, o cheiro da terra molhada depois da chuva... É o olfato que nos põe em contato com os aromas desprendidos pelos diversos componentes do livro, aspirando o frescor da tinta que vem de um livro novo ou o cheiro rançoso exalado por antigos exemplares. E sem muito esforço podemos associar nossas leituras também a muitas fragrâncias ou adjetivos olfativos: mentolado, floral, resinoso, doce, ácido, amargo, salgado, asfixiante, imundo, agradável, excitante, refrescante, delicioso, embriagador, balsâmico, penetrante. Um mediador de leitura deve indicar livros com perfumes embriagadores, mesmo tendo a consciência de que não existe um bom olfato para os livros como existe para os negócios, principalmente se chegarem a leitores com narizes resfriados. AUDIÇÃO É preciso saber captar o timbre com o qual o livro fala, porque cada espírito tem seu som. Há livros que falam baixo e livros que falam alto, livros de tom grave e de tom agudo e talvez poderíamos acrescentar:livros que soam secos e sincopados como ordens militares, melífluos e ameaçadores como prédicas religiosas, confusos e mentirosos como mitenes políticos, falsos e ocos como tagarelices publicitárias. JORGE LARROSA A audição é o segundo sentido a se desenvolver no ventre materno sendo precedido apenas pelo tato. Na 21ª semana de gestação entre em ação uma bela aventura sonora: o músculo cardíaco produz a pulsação rítmica, o estômago e intestinos produzem sons audíveis até fora do corpo, e o que dizer das articulações do esqueleto. Gravações intra-amnióticas detectaram que de todos os sons a que o feto está exposto o que se destaca é o som da voz humana. Com isto deduz-se que o feto humano ouve a voz da mãe e dos próximos a ela, nas suas características particulares de ritmo, entonação, variação de freqüências e timbre. O bebê em gestação ouve a voz, mas não a palavra. Responde aos ruídos bruscos sobresaltando-se e fica imóvel ante uma voz suave ou uma música tranqüila. Ao nascer, quando a maioria dos órgãos sensoriais ainda estão imaturos, o bebê ouve perfeitamente. Portanto no nascimento podemos começar a desenvolver a Leitura de ouvido termo usado pelo professor Ezequiel Theodoro da Silva, da UNICAMP, ao se referir ao ato de contar histórias. Narrar histórias ficcionais, de família, inventadas na hora é a primeira estratégia eficaz de promoção de leitura. Todos que tiveram a oportunidade de ouvir relatam como uma experiência inesquecível. Mas é claro que isso não é suficiente se não fizermos a ponte com o livro. E aí a arte de narrar pode se repetir pela vida, pois o ouvinte entenderá a importância das duas ações: contar e ler. Afinal o livro não produz ruído por si mesmo, onde são colocados ficam a espera de um leitor. E quando são abertos e lidos surgem as vozes do narrador, dos personagens, fazendo com que muitas vezes o leitor acredite estar vivendo a aventura daquele protagonista. Existe um ditado que diz: não há pior surdo que aquele que não quer ouvir. Aplicado este refrão à relação que se mantém com os livros, encontramos certas conseqüências práticas. Do mesmo modo que se diz que não há livro tolo do qual não se possa extrair alguma idéia inteligente, assim se chega à conclusão que em qualquer livro uma pessoa pode ouvir/escutar não só o que lhe agrada. PALADAR Um grande número de livros faz perder o gosto de lê-los e mata o prazer. NIETZSCHE Quando crianças detestamos os sabores amargos, desconfiamos dos ácidos, aceitamos os salgados e sucumbimos aos doces. Já adultos abusamos dos salgados e dos doces, apreciamos os ácidos e toleramos os amargos. Os gostos mudam com a idade e evoluem. As viagens, a variedade de acontecimentos temperam o sentido do paladar que ganha novos matizes de acordo com a experiência. A palavra gosto pode se referir ao sentido localizado na língua e as sensações que se experimentam com o dito órgão e também pode se relacionar com a estética. Por gosto estético se entende essa maneira de sentir e de julgar que temos das coisas e das pessoas. Os textos que nos oferecem podem ser triturados de mil e uma maneiras porque os objetivos da leitura são múltiplos e variados, mas dizer de uma obra que “gosto ou não gosto” é, certamente, um pensamento tão profundo que não diz nada. Claro que dizer “gosto”, é algo fundamental para decidir se continuo ou paro de ler um livro. Mas esse vislumbre do gosto só servirá a mim e aos outros, se ao mesmo tempo me pergunto por que. Desenvolver o gosto pela leitura será mais fácil se tivermos livros diferentes para os destinatários, pois à medida que crescemos vamos ficando mais exigentes com tudo que nos rodeia. Assim como os sabores, ao longo da vida, vamos descobrindo autores, gêneros, estilos, níveis de degustação leitora (pessoal, interpretativa e crítica). Nietzsche sustenta que a arte da leitura está relacionada com o sentido do gosto e com a saúde da digestão. Ler é comer bem: saber escolher os livros que estão em harmonia com a própria natureza e rejeitar os outros; ler livros variados, ler com prazer e frugalidade, assimilar o essencial e esquecer o resto. É preciso tomar a leitura como algo que aumenta a própria força, dedicar-lhe o tempo justo. Os livros são valorados pelos seus efeitos sobre o gosto e há, portanto, livros doces e amargos, picantes, saborosos, ácidos, insípidos, frescos, de digestão leve ou pesada, livros que dão nojo ou que não é possível tragar. Há pessoas que são o que comem, outras, por essas mesmas razões, provam que são o que lêem. POR ONDE COMEÇAR Essa é uma escolha individual, mas que deve vir acompanhada de um sentido que metaforicamente ajuda a todos na travessia da vida. Trata-se do humor que possibilita a reflexão, alivia as tensões e nos difere dos outros animais, já que “o homem é o único animal que ri”. Então que a partir desse momento cada um abra as comportas dos seus sentidos e olhe, ouça, toque, saboreie e cheire um inesquecível livro. E siga os conselhos de Jorge Larrosa que alerta para a conveniência de afastar os "livros-pregadores que correspondem aos leitores-crentes" estimulando o leitor a procurar "os livros que contam e os leitores que importam" Bibliografia: - MORENO, Víctor. Leer con los cinco sentidos. Pamplona: Pamiela, 2003. - LARROSA, Jorge. Nietzsche & a Educação. Tradução de Semíramis Gorini da Veiga. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

Você também pode gostar

0 comentários

Obrigada pela visita! Sua participação é muito importante.

SIGA-ME NO INSTAGRAM: @zildapeixoto