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sexta-feira, agosto 12, 2011

"Frescor agradecido de capim molhado Como alguém que chorou E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria Por ter a vida continuado..." Desci do ônibus e fui caminhando, com as mãos nos bolsos, enquanto pensava na vida. Ia tão distraído tentando olhar para as coisas e para as pessoas, que acabei passando a rua de casa e me encontrava agora numa esquina em frente a um bar, onde havia alguma gente conversando despreocupada, escorados num balcão de alumínio e bebendo cerveja. Num sábado daquele de sol, depois de largar as seis horas obrigatórias do serviço, tendo ainda que rir para todo mundo fingindo que gosta de ensacar as compras dos outros, resolvi entrar e tomar uma também. Fiquei olhando as outras pessoas beberem, ouvindo o que diziam umas para as outras, não os assuntos banais do jornal ou do futebol, que a gente acaba comentando também só para não ficar de fora. Por que no fundo é isso que todo mundo quer, se comunicar falando qualquer assunto, o que importa é que o outro escute. Por algum motivo, um dos senhores se virou e perguntou se eu ia torcer para o Remo ou Payssandu, e eu acabei tomando sete cervejas falando com desconhecidos sobre futebol. O calor já tinha amenizado, eu ja´podia sair do bar e voltar pelo caminho que tinha feito, então estaria em casa e poderia lavar o corpo daquela poluição. Me despedi de meus já antigos companheiros, e quando eu ia saindo, um mendigo, sentado ao pé de um poste com sua lata de moedas, pediu-me uma esmola. Quando se olha um morador de rua o que se vê não agrada os olhos, e eles geralmente não me despertam compaixão, mas esse pelo estado em que se encontrava, imundo, mais deitado que sentado, me fez procurar nos bolsos alguma coisa para dar, acontece que eu não tinha nada. Me desculpei e saí andando, envergonhado de ter gastado tudo o que carregava com cerveja e não ter nem uma moeda para o pedinte. Vergonha de saber que eu tinha acabado de beber e conversar com várias outras pessoas, e o mendigo também é uma pessoa, pelo menos parece com uma, então por quê ele não podia estar lá bebendo com a gente? Em quê aquele homem seria tão diferente de mim? Sua aparência era deplorável realmente, mas o que se poderia dizer de seu caráter? Seria um devasso, um pervertido, um drogado, um justo, um Santo? E o que dizer dos tantos que usam ternos italianos, mas são apenas sepulcros caiados, imaculados por fora mas só ossos e podridão por dentro. O que dizer de mim, que desde cedo na rua, num fim de tarde de sábado, com um celular novo que eu pegava do bolso e que não tinha tocado o dia inteiro, pois nem eu tinha ninguém para ligar. Fui andando e pensando na vida. Já não olhava mais as pessoas ou as coisas; tinha a cabeça pesada, parecia que um pensamento dentro dela dava voltas e não encontrava lugar onde pousar. Na rua os carros acendiam os faróis e movimentavam-se cada vez mais apressados, como se o pôr-do-sol fosse sinal para o início de alguma festa, quando na verdade sinaliza apenas que mais um dia chega ao fim. Parei com as chaves em frente o portão de casa, as luzes estavam todas apagadas lá dentro, provavelmente não tinha ninguém. Abri a porta e apertei o interruptor, então ouvi um grito: -Surpresaaaaaa!!!! Algumas tias e tios, meus primos, dois amigos do peito e minha namorada. Minha mãe e meu irmão mais novo. A mesa com uma toalha limpa e um bolo de chocolate no centro com as duas velinhas da idade nova que eu nem me lembrava mais sendo acendidas. Os chegados mais próximos se reunindo em volta de mim começando a cantar parabéns-pra-você. Eu com esses olhos que querem ver tantas coisas ficando marejados... Era meu aniversário. Por Augusto Abreu. Leia um conto por dia em http://contospromissores.blogspot.com

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2 comentários

  1. Muito obrigado por me ajudar a divulgar o blog colocando o link embaixo! Parece incrível, mas muitas pessoas esquecem de citar o nome e a fonte quando pegam textos dos outros, mas obviamente não é o seu caso!
    Felicidades!
    :)

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  2. Gostei do teu jeito de escrever, frases interessantes como "esses olhos que querem ver tantas coisas"

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