Ao sabor da leitura - Você considera-se um Slow Reading?

quinta-feira, agosto 18, 2011

O slow reading e seus adeptos pregam uma apreciação diferente dos livros. Para eles, o importante é se deleitar com as palavras. Degustar versos, prosa, ficção. Mastigar e digerir letra por letra. E nada de engolir frases por inteiro! Essa é a proposta do slow reading (leitura sem pressa), movimento que embarca na mesma onda do slow food. Pesquisado pelo especialista em tecnologia da informação John Miedema, o assunto ganhou as prateleiras com o título Slow reading — Os benefícios e o prazer da leitura sem pressa (Ed. Octavo), lançado recentemente no Brasil. A ideia é refletir sobre esse período em que e-books, netbooks e celulares conectados à internet permitem a inserção de leitores em uma rede infinita de publicações. A leitura, no entanto, deixou de ser calma e prazerosa. Segundo o autor, há um número crescente de pessoas frustradas com a sobrecarga de informações. Por isso, elas estariam adotando uma leitura sem pressa. No livro, Miedema assume ser um leitor voraz — e lento. “A leitura demorada de um livro leva a uma relação mais profunda com as suas histórias e ideias. Quando leio um livro lentamente, ele continua me influenciando mesmo depois de passados anos”, defende no preâmbulo. O publicitário Nicolas Caballero Loes, 40 anos, concorda. Sabe de cor trechos e frases de obras que manteve na cabeceira por semanas até que o livro criasse asas e o deixasse saudoso. “Quando leio, fico imerso na história. Não consigo parar. É como se me desligasse do resto do mundo”, descreve. Fã de carteirinha de livros de história, ele confessa não ter tido coragem para encerrar o terceiro volume de uma série sobre a civilização inca. “Se nos dois primeiros livros levei dias, no último, foram semanas. Li com muita calma. Não queria que aquele encantamento terminasse e fosse parar na estante.” Muitos leitores, é claro, praticam o slow reading sem conhecer o termo. São homens e mulheres que ora leem pausadamente, ora mais rápido, mas que exercem o direito de desacelerar quando bem quiserem. A empresária Alyne Gomes, 27, zela por esse livre arbítrio. Ela sempre reserva tempo e espaço para o hábito. “Leio de ficção a livros espíritas. Para mim, a leitura é quase uma meditação. É como se conseguisse calar os problemas e o corre-corre para me dedicar àquele enredo durante o tempo que julgar necessário”, define. E, se a vida moderna, como exemplificou John Miedema, nos leva a ler desde “outdoors nas margens da estrada, e-mails, torpedos no trabalho, a fatura do cartão entregue pelo correio”, será que estamos lendo mais e mais rápido? Para escritora catarinense Regina Carvalho, professora aposentada do departamento de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o avanço da tecnologia permitiu uma série de novas plataformas de leitura. A compreensão do conteúdo, no entanto, é uma incógnita. “Ler e compreender depende do leitor, de seu interesse, de sua capacidade de extrapolação da leitura: do específico do texto para o genérico do mundo, ou do genérico para o particular de seu próprio mundo”, acredita. É o leitor quem dita o ritmo em que a obra é apreendida. No caso de Nicolas e Alyne, a velocidade é totalmente espontânea. “Nada de correr para chegar ao ponto final somente para dizer a outros que li tais ou tais obras”, frisa Nicolas. Longe de qualquer intenção exibicionista, eles desenvolverem o gosto por folhear um livro de cabo a rabo. “Sem a sensação de perda de tempo. Nada de pressão… Leio porque gosto, porque me informo, porque me sinto bem”, diz Alyne. Seja na leitura de Fiodor Dostoiévski (Crime e Castigo) ou de Dan Brown (Código da Vinci), o lema dos sem-pressa é ler por prazer. “Algumas obras permitem leitura dinâmica, outras não. Autores mais difíceis, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, James Joyce, são impossíveis de serem lidos dessa maneira. Tudo vai depender do estilo do escritor, da complexidade da trama e até mesmo da sua própria disposição”, ressalta a escritora Regina Carvalho. Seguro de que a leitura sem pressa deve ganhar cada vez mais adeptos, John Miedema se junta a um coro de leitores que não dispensam anotações a lápis, marcações no livro, fichamento e o que mais for interessante para saborear personagens e tramas. Ainda mais se encararmos o livro como um agente de mudanças. Agente esse que fez com que São João “devorasse” leituras para “metabolizar” o Livro das revelações, como o escritor destacou no primeiro capítulo de Slow reading. “Comer um livro simboliza a internalização profunda e pessoal de uma ideia, um ato íntimo que tem força transformadora”, escreveu. Seja qual for o propósito da leitura — lazer, trabalho, autoconhecimento, devoção — ler sem pressa nada mais é que “banquetear-se”. Ao bel prazer. Garfadas em marcha lenta O princípio básico do movimento é o direito ao prazer da alimentação, adotando produtos artesanais, produzidos de forma que respeitem tanto o meio ambiente quanto as pessoas responsáveis pela manufatura. Fundado por Carlo Petrini em 1986, o slow food se tornou uma associação internacional sem fins lucrativos três anos depois. Atualmente, conta com mais de 100 mil membros e parceiros em 132 países. Bom apetite! Conselhos de John Miedema, autor do livro Slow reading (Ed. Octavo) >> Leia o livro inteiro: capa, prefácio, notas de rodapé e apêndices; >> Saboreie as ilustrações e não ouse saltar a poesia; >> Subvocalize as palavras ou leia-as em voz alta; >> Volte atrás e releia trechos; >> Discuta com o livro: o que ele apresenta se comparado à sua experiência?

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