Comédias para Ler na Escola - Luís Fernando Veríssimo

terça-feira, agosto 16, 2011

Este livro está longe de ser um lançamento, mas resolvi fazer uma resenha sobre ele porque definitivamente,eu adoro esse tipo de gênero. Sempre li crônicas. E sempre gostei das crônicas escritas pelo Luis Fernando Veríssimo. Elas são engraçadas, inteligentes, e muitas vezes educativas. Acho que é esse o ponto em Comédias Para Ler na Escola. O brasileiro não lê muito, isso é comprovado por pesquisas. E as leituras que indicam na escola não ajudam a formar verdadeiros leitores. Neste livro, a ideia é que leitura pode ser agradável, e nós sabemos que realmente é. As crônicas são selecionadas para o público alvo, que são os adolescentes, então elas não são difíceis e são divertidas. Elas mostram porque ler é tão interessante para algumas pessoas, como eu. O livro é dividido em capítulos e cada um tem em torno de cinco ou seis crônicas. Li algumas com meu primo de 9 anos, que passa bastante tempo comigo e que eu vivo tentando fazer com que leia, geralmente sem muito sucesso. Mas dessa vez ele leu junto comigo e para mim e gostou. Chegou até a ler uma das crônicas para o irmão mais novo, que não viu muita graça, mas tudo bem. Eu não podia querer um milagre, não é? Dizer que gostei do livro acaba sendo uma redundância. Até hoje gostei de tudo que li do Veríssimo e pretendo continuar lendo. É uma boa pedida quando você quer rir com o que lê. São muitas crônicas interessantíssimas e engraçadas que,fica até difícil escolher uma só.Mas,escolho " PUDOR"... Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca. "Sílfide", por exemplo. É dizer "Sílfide" e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa. "Sílfide", eu sei, é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo? Ao contrário da sua mulher, "silfo" não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. "Silfo", zupt, plof. A própria palavra "borboleta" não voa, ou voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede. Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha". Esta não voa mas paira no ar, como a neblina das manhãs até ser desmanchada pelo sol. Já a terrível palavra "seborréia" escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete. "Trilhão" era uma palavra pouco usada, antigamente. Uma pessoa podia nascer e morrer sem jamais ouvir a palavra "trilhão", ou só ouvi-la em vagas especulações sobre as estrelas do Universo. O "trilhão" ficava um pouco antes do infinito. Dizia-se "trilhão" em vez de dizer "incalculável" ou "sei lá". Certa vez (autobiografia) tive de responder a uma questão de Geografia no colégio. Naquele tempo a pior coisa do mundo era ser chamado a responder qualquer coisa no colégio. De pé, na frente dos outros e — o pior de tudo — em voz alta. Depois descobri que existem coisas piores, como a miséria, a morte e a comida inglesa. Mas naquela época o pior era aquilo. "Senhor Verissimo!" Era eu. Era irremediavelmente eu. "Responda, qual e a população da China?". Eu não sabia. Estava de pé, na frente dos outros, e tinha que dizer em voz alta o que não sabia. Qual era a população da China? Com alguma presença de espírito eu poderia dizer: "A senhora quer dizer neste exato momento?", dando a entender que, como o que mais acontece na China é nascer gente, uma resposta exata seria impossível. Mas meu espírito não estava ali. Meu espírito ainda estava em casa, dormindo. "Então, senhor Verissimo, qual é a população da China?" E eu respondi: — Numerosa. Ganhei zero, claro. Mas "trilhão", entende, era sinônimo de "numeroso". Não era um número, era uma generalização. Você dizia "trilhão" e a palavra subia como um balão desamarrado, não dava tempo nem para ver a sua cor. E hoje não passa dia em que não se ouve falar em trilhões. O "trilhão" vai, aos poucos, se tornando nosso íntimo. É o mais novo personagem da nossa aflição. Quantos zeros tem um trilhão? Doze, acertei? Se os zeros fossem pneus, o trilhão seria uma jamanta daquelas de carregar gerador para usina atômica parada. Felizmente vem aí uma reforma e outra moeda, com menos zeros e mais respeito. Senão chegaríamos à desmoralização completa. — E o troco do meu tri? — Serve uma bala? Desconfio que o que apressará a reforma é a iminência do quatrilhão. "Quatrilhão" é pior que "seborréia". Depois de dizer "quatrilhão" você tem que pular para trás, senão ele esmaga os seus pés. E "quatrilhão" não é como, por exemplo, "otorrino", que cai no chão e corre para um canto. "Quatrilhão" cai, pesadamente, no chão e fica. Você tenta juntar a palavra do chão e ela quebra. Tenta remontá-la – fica "trãoliqua" e sobra o agá. A mente humana, ou pelo menos a mente brasileira, não está preparada para o "quatrilhão". As futuras gerações precisam ser protegidas do "quatrilhão". As reformas monetárias, quando vêm, são sempre para acomodar as máquinas calculadoras e o nosso senso do ridículo, já que caem os zeros mas nada, realmente, muda. A próxima reforma seria a primeira motivada, também, por um pudor lingüístico. No momento em que o "quatrilhão" se instalasse no nosso vocabulário cotidiano, mesmo que fosse só para descrever a dívida interna, alguma coisa se romperia na alma brasileira. Seria o caos. E "caos", você sabe. É uma palavra chicle-balão. Pode explodir na nossa cara.

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