Em Destaque #03: "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" de Fernando Morais

quinta-feira, agosto 25, 2011

"Escrever acaba sendo um sofrimento muito grande", diz Fernando Morais.


O jornalista e escritor Fernando Morais acaba de entrar na maratona de lançamento de sua obra mais recente, "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" (Companhia das Letras, 2011).


Para fazer o livro-reportagem, sobre a espionagem entre cubanos e os movimentos anticastristas nos anos 1990, o autor realizou dezenas entrevistas e viagens para Cuba e EUA.
No entanto, para ele, a parte mais trabalhosa foi a redação. "Escrever é que dói. Tenho muita inveja de autores como o Mário Prata, que senta diante do computador e produz o texto final na hora."Em entrevista, por e-mail, à Livraria da Folha, o escritor fala sobre Cuba, as dificuldades de investigar um tema secreto e internacional, como funciona seu processo de escrita, o público dos livros de não-ficção e canta a bola do que vem por aí em seus próximos projetos.

Assista o trailer de "Os Últi­mos Soldados da Guerra Fria".



A seguir,confira sua entrevista dada à Livraria da Folha.

Livraria da Folha: Como é a sua relação com os temas? É um amor à primeira vista ou exige um namoro prévio? Como o tema de "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" chegou até você?

Fernando Morais: A escolha de um tema ou de um personagem varia muito. Já escrevi sobre histórias que caíram no meu colo em conversas informais. Neste caso eu soube do episódio no dia das prisões dos dez agentes cubanos pelo FBI, em Miami, em setembro de 1998. Ouvi a notícia no rádio de um táxi, no meio do trânsito, em São Paulo, e na hora pressenti que ali havia um livro embutido. Viajei a Cuba para tentar levantar o assunto, mas encontrei todas as portas fechadas. Para se ter uma ideia, Cuba só assumiu que eles de fato eram agentes de inteligência três anos depois, em 2001. O tema era tratado como segredo de Estado.

Livraria: Como era a reação dos entrevistados ao saber que um jornalista brasileiro estava investigando um assunto que, apesar de se relacionar a um contexto mundial, era protagonizado pelos EUA e por Cuba? De que maneira este olhar estrangeiro facilitou e/ou dificultou a apuração?

Fernando: Tanto em Cuba como nos Estados Unidos muita gente estranhava o fato de um brasileiro se interessar pelo assunto. Mas eu já tinha vivido situação semelhante quando pesquisava para escrever "Corações Sujos" - livro que, aliás, acaba de ser transformado em filme pelo diretor Vicente Amorim. Os personagens, todos japoneses, se perguntavam: por que é que esse gaijin, esse estrangeiro, está metendo o nariz em uma história que não é da conta dele? Mas em ambos os casos os entrevistados acabaram concluindo que era melhor que o livro fosse escrito por um estrangeiro, alguém que não tinha ligação com nenhuma das partes envolvidas nos conflitos.

Livraria: Você pode contar detalhes de como foi feita a apuração nos dois países? Quanto tempo e quantas idas e vindas levou? Por se tratar de uma reportagem sobre espionagem, houve mais obstáculos do que o normal? Quais foram os principais?

Fernando: Os cubanos só liberaram o assunto para mim no começo de 2008. A partir de então fiz cerca de vinte viagens a Havana, Miami e Nova York. O governo de Cuba liberou todo o material disponível e permitiu que eu entrevistasse quem quisesse, inclusive mercenários estrangeiros que haviam sido presos após colocar bombas em hotéis e restaurantes turísticos de Cuba e que tinham sido condenados à morte. Nos Estados Unidos foi mais difícil. Como os agentes do FBI são proibidos de dar declarações públicas, só consegui entrevistas em off. Mas graças ao FOIA - Freedom of Information Act, a lei que regula a liberação de documentos secretos - e após pesquisas nos arquivos da Justiça Federal da Flórida, tive acesso a cerca de 30 mil documentos enviados pela Rede Vespa a Cuba e que haviam sido apreendidos pelo FBI nas casas dos agentes cubanos em Miami. E os serviços de inteligência cubanos me deram uma cópia do megadossiê sobre o terrorismo na Flórida que Fidel Castro entregou a Bill Clinton com a ajuda do escritor Gabriel García Márquez.

Livraria: Como você se sentiu ao trazer para a realidade um tema tão caro à ficção como a espionagem internacional? Há uma certa aventura em correr atrás deste assunto?

Fernando: Eu já tinha vivido uma experiência semelhante em 1977, quando escrevi para a revista Playboy uma reportagem intitulada "O homem de Fidel na CIA" (matéria que recebeu o Premio Abril de Jornalismo daquele ano). Era a história do comandante Tony Santiago, um combatente da Sierra Maestra que se infiltrou na CIA e acabou sendo morto em alto mar, quando simulava uma invasão de Cuba. A diferença é que essa reportagem foi apurada e escrita quase vinte anos depois da ocorrência dos fatos e foi quase toda baseada em material de arquivo, enquanto no caso de "Os últimos soldados da Guerra Fria" eu lidei com personagens vivos e tive que entrevistar mais de quarenta pessoas tanto em Cuba quanto nos Estados Unidos para poder reconstituir a história do começo ao fim.

Livraria: Como você descreve a sensação de encaixar as peças colhidas durante as conversas e leituras de documentos e ver começar a surgir uma imagem nítida?

Fernando: Como sou muito detalhista e extremamente exigente comigo mesmo, escrever acaba sendo um sofrimento muito grande. Não se trata de ter ou não ter inspiração, mas às vezes eu fico dias para conseguir escrever uma lauda, ou até um parágrafo. Pesquisar e entrevistar pessoas é a parte menos trabalhosa de um livro. Escrever é que dói. Tenho muita inveja de autores como o Mário Prata, que senta diante do computador e produz o texto final na hora.

Livraria: Como se deu o processo de escrita? Você foi tocando o texto enquanto ainda recolhia materiais ou só começou a criar após ter terminado completamente as apurações? Pode falar um pouco sobre como funciona o seu processo de costura das informações?

Fernando: À medida que vou realizando as entrevistas ou levantando documentos em arquivos já organizo minimamente o material obtido, mas só começo a escrever quando está tudo pronto. Muitas vezes, ao escrever descubro que falta checar algum dado ou perguntar de novo a um entrevistado algum detalhe que me escapou. Hoje em dia, com a existência de mecanismos eletrônicos, como a internet e o Skype, isso ficou mais fácil.

Livraria: Que contrastes você viu entre a Cuba do passado que você teve acesso durante as pesquisas e Cuba atual? O que você imagina como futuro da ilha?
Fernando: Cuba teve que se adaptar às mudanças ocorridas no mundo nas últimas décadas, especialmente depois do fim da União Soviética. O governo está corrigindo muitos erros cometidos logo após o triunfo da Revolução, quando o país viveu um processo radical de estatização de praticamente todos os meios e bens de produção. Quanto ao futuro, acho muito difícil haver alguma mudança profunda no sistema político cubano enquanto sobreviver o bloqueio que os Estados Unidos impõem ao país há mais de 50 anos.

Livraria: O público dos livros-reportagem no Brasil cresceu junto com você e o Ruy Castro, praticamente pioneiros do gênero por aqui. Hoje, grande parte dos best sellers nacionais são de não-ficção. Você sente que há uma preferência dos leitores do país por este gênero? Se sim, tem algum palpite que explique este gosto por histórias reais?

Fernando: No começo eu achava que esse interesse se devia apenas ao fato de que os leitores estavam interessados em ler o que havia sido proibido durante a ditadura militar, mas isso não explica tudo. Honestamente, não sei dizer de onde vem essa preferência dos leitores. Mas como não escrevo ficção, estou muito feliz que seja assim.

Livraria: Quais serão seus próximos projetos?

Fernando: Ainda não sei. Sempre tenho meia dúzia de histórias ou de personagens amadurecendo em meus arquivos. Agora tenho que enfrentar uma verdadeira maratona de lançamentos, sessões de autógrafos e debates sobre "Os últimos soldados da Guerra Fria" por todo o Brasil. Quando terminar esse trabalho, decido o que farei. Pode ser que eu escreva um livro sobre os oito anos do governo Lula.

"Os Últimos Soldados da Guerra Fria"
Autor: Fernando Morais
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 408
Quanto: R$ 37,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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