Livro que originou filme com Anne Hathaway, "Um Dia" é relato espirituoso sobre o tempo

quinta-feira, agosto 25, 2011



Não é sempre que um best seller internacional -- mais de 1,3 milhão de exemplares vendidos com publicação em 37 países -- é também um grande livro. Mas é preciso vencer esse preconceito para ser compensado com “Um Dia”, de David Nicholls (tradução de Claudio Carina, editora Intrínseca), que já chega às prateleiras brasileiras com capa e contracapa repletas de frases estimulantes de escritores famosos e críticos de diversos veículos de imprensa internacional.
"Sensacional", "emocionante" e "clássico moderno" são alguns dos elogios destacados para vender o livro. Nick Hornby diz que a história é "cativante, inteligente, espirituosa". E o melhor: nenhum exagera. "Um Dia" prende o leitor, embora talvez seja longo demais e realista demais, destruindo qualquer chance de suspiros românticos ao longo das 416 páginas.
O enredo é digno dos melhores roteiros de cinema – e o livro foi mesmo transformado em filme com roteiro do mesmo Nicholls, direção de Lone Scherfig, e protagonizado por Anne Hathaway e Jim Sturgess (estreia dia 8 de julho nos Estados Unidos).
Dexter Mayhew e Emma Morley se conhecem em 1988, quando ainda bem jovens passam uma noite juntos que marcará para sempre suas vidas. Numa tentativa muitas vezes frustrada de repetir a magia que os uniu naquela noite, Dexter e Emma não perderão o contato por muito tempo ao longo dos próximos 20 anos.

O autor, um inglês nascido em 1966 e que tem formação em literatura e teatro inglês, optou por um formato inusitado para contar sua história: são relatos da vida e do relacionamento dos dois personagens narrados em todos os dias 15 de julho, ano a ano, por duas décadas. Com um texto inteligentemente engraçado, a proposta de construção do texto é muito bem executada.
David Nicholls é sarcástico em sua narrativa. Ele aproxima tanto a construção dos seus personagens da vida real que não tem como odiar um pouco os protagonistas. Dex é detestável. De uma beleza juvenil impressionante, é arrogante em seu excesso de autoestima. Tem atitudes grosseiras e infantis. Um clássico anti-herói dos nossos tempos, que trabalha na televisão e mantém uma garrafa de vinho ao lado da cama, "para o caso de sentir sede na madrugada".
Do extremo oposto da irritante firmeza de Dexter, Emma é uma chata insegura. Demora para se firmar profissionalmente, e perde preciosos anos em empregos desinteressantes e relações sem prazer, nem amor. São delas os poucos rompantes de romantismo do livro – quando o autor dá uma chance aos que acreditam que aquela pode ser uma história de amor.
Mas "Um Dia" não é um livro sobre o amor. É um livro sobre o tempo. Dex e Em são exemplos de como o tempo pode ser amigo ou inimigo de uma pessoa. E como nem sempre essa é uma questão sobre a qual podemos ter controle. "Quando eu era mais jovem tudo parecia possível. Agora nada parece possível", diz um amargurado Dexter com 35 anos. "Emma, para quem o oposto tinha provado ser verdade, disse apenas: ‘Não é tão ruim assim’".
Com ótimos diálogos e surpreendentes turn points, até a antipatia aos personagens, propositalmente provocada no leitor, faz sentido em “Um Dia”. Há inúmeros Dex e Em ao nosso redor. David Nicholls, além de escrever bem, é um cronista do nosso tempo.

Você também pode gostar

1 comentários

Obrigada pela visita! Sua participação é muito importante.

SIGA-ME NO INSTAGRAM: @zildapeixoto