Registro #01 - Crônicas Cariocas e o Modernismo

domingo, agosto 14, 2011

Hoje,acordei pensando em criar uma coluna cujo nome seria "REGISTRO".Nesse espaço pretendo postar acontecimentos da história literária do nosso país.Caberá à coluna,relembrar fatos ocorridos que digam respeito à diversos temas sobre literatura,seus gêneros literários,fatos marcantes entre outros. Sendo assim,a primeira postagem será sobre crônicas cariocas no período tão importante que foi o Modernismo.Sigamos em frente. No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, surge uma nata de escritores, que moldam a literatura brasileira, com textos de grande relevância no processo de construção do conhecimento literário – independente da formação intelectual dos autores – buscando uma reflexão de caráter social, político e cultural. Um dos formadores de opinião era uma dos maiores responsáveis na lapidação da língua portuguesa, Machado de Assis: “A história é uma castelã muito cheia de si e não me meto com ela. Mas a minha comadre crônica, isso é que é uma velha patusca, tanto fala como escreve, fareja todas as coisas miúdas e grandes, e põe tudo em pratos limpos”. Seguindo nesta linha de raciocínio, encontramos outros cronistas que apresentavam suntuosidade na arte de escrever, como Lima Barreto , João do Rio e Olegário Mariano e analisados pelo crítico literário Nicolau Sevcenko [ SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão, Ed. Brasiliense, São Paulo, Pags 385, 1983 ]. O escritor Lima Barreto fez um raio – x das transformações sociais e os reflexos da má administração pública no Rio de Janeiro ( foto ), principalmente na primeira década do século XX, assolada pela miséria intelectual e social das camadas menos favorecidas, escondidas pelas reformas urbanas, ocorridas na antiga Capital Federal, entre 1903 e 1906. A escrita foi sua arma, tentando marginalizar o positivismo e enaltecendo os grupos excluídos, afogada na mais profunda ignorância. O povo carioca de baixa renda, foi varrida dos cortiços e expulsa de uma forma fria pelos burgueses ou “donos do poder”. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto foi um daqueles que fazia a seguinte pergunta na sua época. E agora José? A ironia pertinente era o fio condutor dos seus textos em 1920: “Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e todo instante, estamos vendo o governo lamentar – se que não faz isso ou não faz aquilo por falta de verba” O outro crítico das mazelas sociais foi João do Rio, que por sinal, sofria uma forte discriminação das elites por ser mulato e homossexual, entretanto, ganhou credibilidade entre os intelectuais do seu tempo, explorando e mesclando uma linguagem moderna, e rompendo com o naturalismo e positivismo, tão presente na cultura de “Ordem e Progresso”. O Rio de Janeiro, enquanto capital da República, passou por uma modernização, com um carimbo da cultura francesa e consolidação do capitalismo moderno, descrevendo a miséria e a agonia dos excluídos nas crônicas do escritor: “Os delegados de polícia são de vez em quando uns homens amáveis. Esses cavalheiros chegam mesmo, ao cabo de certo tempo, a conhecer um pouco da sua profissão e um pouco do trágico horror que a miséria tece na sombra da noite por essa misteriosa cidade. Um delegado, outro dia, conversando dos aspectos sórdidos do Rio, teve a amabilidade de dizer: - Quer vir comigo visitar esses círculos infernais? Não sei se o delegado quis dar – me apenas a nota mundana de visitar a miséria, ou se realmente, como Virgílio, o seu desejo era guiar – me através de uns tantos círculos de pavor, que fossem tantos ensinamentos. Lembrei – me que Oscar Wilde também visitara as hospedarias de má fama e que Jean Lorrain se fazia passar aos olhos dos ingênuos, como tendo acompanhado os grãos – duques russos nas peregrinações perigosas que Goron guiava”. Para terminar, temos um dos principais expoentes da metamorfose literária do século passado, Olegário Mariano, escreveu sobre o comportamento de gêneros, dando ênfase substancial no papel do sexo feminino, mostrando desde o comportamento fútil da mulher burguesa até o glamour da língua francesa, entre as mulheres ditas como modernas, porém o cronista revela nas entrelinhas, os estereótipos sobre a mulher com profundas raízes na cultura patriarcal, herança do Brasil Colônia, mantida na estrutura cristã da família nuclear e conservadora, citando a liberdade das mulheres e a ruptura com uma identidade retrógrada e submissa: “Muitos são contra. Outros por medo ou covardia Acham de pôr na idéia entusiasmos supremos. Que a mulher magra ou gorda, alta ou baixa, seria Um lírio ornamental no Jardim de Academus Se é por ela afinal que todos nós vivemos, Se é dela que nos vem o encanto da Poesia, Por que havemos de usar processos extremos E fechar – lhe o portão da douta Academia? Há um obstáculo só que me parece enorme: O “habit – vert”. Que fazer? Criar novo uniforme Ou deixá – la à paisana o templo penetrar? Os velhos do “Trianon” quase dizem nada Mas preferem por certo a mulher decotada Que uma mulher de farda é horrível de se olhar” Enfim, estes intelectuais definidos como formadores de opinião, anteciparam e consolidaram o Modernismo de Tarsila do Amaral, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, entre outros, com textos cirúrgicos, atingindo pontos nevrálgicos da sociedade carioca. A fome, a miséria e a mulher ocupavam os principais jornais e revistas de uma forma poética, prontamente estudada pelos cronistas, tendo como ponto de encontro a charmosa Confeitaria Colombo. Os três escritores, hoje, estão no Panteão dos imortais da literatura moderna e língua portuguesa, com textos que são verdadeiras dádivas da literatura moderna!

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