Saindo do forno #02: Lançamentos da Companhia das Letras

domingo, agosto 21, 2011

Os lançamentos da semana são:




Amores; Arte de amar, de Ovídio (Tradução de Carlos Ascenso André)


Para o poeta latino Ovídio, o amor é uma técnica que, como toda técnica, pode ser ensinada e aprendida. Isso, porém, não é simples: “São variados os corações das mulheres; mil corações, tens de apanhá-los de mil maneiras”, ele diz. Essas “mil maneiras” são ensinadas em sua Arte de amar, uma espécie de manual do ofício da sedução, da infidelidade, do engano e da obtenção do máximo prazer sexual, elaborado a partir das experiências vividas pelo poeta e descritas em Amores.

Autoproclamado mestre do amor, Ovídio versa sobre as regras da procura e da escolha da “vítima” (o espaço, a ocasião, as ações e o comportamento apropriados para a conquista), o código de beleza masculino, o desejo da mulher (que acredita ser mais ardente do que o do homem), o ciúme, o domínio da palavra escrita e falada, o poder do vinho como aliado na sedução, o fingimento, a lisonja, as promessas (principalmente as vazias), os homens que devem ser evitados, como presentear, a técnica da carícia e os caminhos do corpo feminino, seguidos da necessidade de concórdia, paciência e alternância entre insistir e ceder.

Seus poemas quase didáticos renderam-lhe fama nos salões de um Império Romano então voltado aos prazeres sensoriais e, ainda hoje, têm notável atualidade. A edição da Penguin-Companhia das Letras tem tradução e introdução de Carlos Ascenso André, professor de línguas e literaturas clássicas da Faculdade de Letras de Coimbra, e apresentação e notas do inglês Peter Green, escritor, tradutor e jornalista literário. Rica em detalhes históricos e com todas as polêmicas que cercam a vida do autor, como a sua expulsão de Roma, os escritos perdidos e sua vida pessoal, a introdução de Peter Green, que demorou doze anos para ser escrita, é uma espécie de biografia do poeta, que ajuda o leitor a entender a atualidade destes poemas escritos há cerca de dois mil anos.

“A relação a dois implica uma densa rede de enganos, de traições, de ciladas, de encruzilhadas, onde homem e mulher se divertem nas teias da sedução e do engano mútuos, onde homem e mulher se detêm a aprender e delinear ludicamente táticas de perversão.” - Carlos Ascenso André “A todas as histórias o meu amor é capaz de adaptar-se. Uma idade jovem seduz-me, uma idade mais madura toca-me; aquela por ter mais beleza de corpo, esta por possuir sabedoria. Enfim, as mulheres que podem apreciar-se em toda a cidade de Roma, a todas elas pode o meu amor abranger.” - Trecho de Amores



Alvo Noturno de Ricardo Piglia

Recebido com entusiasmo pela crítica, poucos meses depois de publicado, o romance Alvo noturno recebeu o importante prêmio literário venezuelano Rómulo Gallegos. Trata-se, por assim dizer, de um romance policial-social. A ação, que se passa num povoado do pampa argentino nos anos da ditadura militar - de que ficou a herança traumática com que o país se debate até hoje -, ilumina com a agudeza característica de Piglia a organização corrompida da sociedade rural, caracterizada pela autoridade inconteste dos que mandam, pela impunidade de seus crimes e pela perversidade das relações pessoais.

A trama gira ao redor de Tony Durán, porto-riquenho de Nova Jersey. A razão da ida daquele moreno elegante, sedutor, de passado duvidoso, para o lugarejo argentino é obscura: dizem que mantinha um caso amoroso com as gêmeas Belladona, as belas Ada e Sofía, filhas do mandachuva local. Outras hipóteses falam em especulação, lavagem de dinheiro, e até um rumoroso caso homossexual. Assunto predileto do povoado, um dia Tony aparece morto em seu quarto de hotel. A investigação desnudará pouco a pouco uma sociedade paralisada pela lógica da violência e do poder.

Enviado por seu jornal, Emilio Renzi chega de Buenos Aires para escrever a matéria - que o jornalista pretende transformar num amplo painel social. Para isso, ao lado do comissário Croce, investiga as arqueologias familiares e desconstrói os papéis dos protagonistas: ora seres destruidores, ora indivíduos inermes diante do poderio do sistema validado pelo Estado: uma sociedade em que é impossível sonhar, como evidencia o destino de Luca Belladona, que pagará sua resistência e sua utopia com a solidão extrema.



Os Últimos Soldados da Guerra Fria de Fernando Morais

No início da década de 1990, Cuba criou a Rede Vespa, um grupo de doze homens e duas mulheres que se infiltrou nos Estados Unidos e cujo objetivo era espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação temerária era colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. De fato, algumas dessas organizações ditas “humanitárias” se dedicavam a atividades como jogar pragas nas lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e, quando Cuba se voltou para o turismo, depois do colapso da União Soviética, sequestrar aviões que transportavam turistas, executar atentados a bomba em seus melhores hotéis e até disparar rajadas de metralhadoras contra navios de passageiros em suas águas territoriais e contra turistas estrangeiros em suas praias.

Em cinco anos, foram 127 ataques terroristas, sem contar as invasões constantes do espaço aéreo cubano para lançar panfletos que, entre outras coisas, proclamavam: “A colheita de cana-de-açúcar está para começar. A safra deste ano deve ser destruída. [...] Povo cubano: exortamos cada um de vocês a destruir as moendas das usinas de açúcar”. Em trinta ocasiões, Havana formalizou protestos contra Washington pela invasão de seu espaço aéreo por aviões vindos dos Estados Unidos - sem nenhum efeito. Enquanto isso, em entrevistas, líderes anticastristas na Flórida diziam explicitamente: “A opinião pública internacional precisa saber que é mais seguro fazer turismo na Bósnia-Herzegovina do que em Cuba”.

Os últimos soldados da Guerra Fria narra a incrível aventura dos espiões cubanos em território americano e revela os tentáculos de uma rede terrorista com sede na Flórida e ramificações na América Central, e que conta com o apoio tácito nos Estados Unidos de membros do Poder Legislativo e com certa complacência do Executivo e do Judiciário. Ao escrever uma história cheia de peripécias dignas dos melhores romances de espionagem, Fernando Morais mostra mais uma vez como se faz jornalismo de primeira qualidade, com rigor investigativo, imparcialidade narrativa e sofisticados recursos literários.



Ao anoitecer, de Michael Cunningham (Tradução de José Rubens Siqueira)

Em seu sexto romance, Michael Cunningham volta ao mundo da arte e penetra na alma de um homem de meia-idade que aparentemente cumpriu todas as exigências da vida. Suas certezas, no entanto, desmoronam de um momento para o outro. O quarentão Peter Harris é dono de uma galeria de arte bem-sucedida, embora não do primeiro time. Seu casamento é estável e sua vida social está bem encaminhada. Mas a visita do cunhado detona uma crise que coloca Peter diante de grandes dilemas.

Ethan, 23 anos mais jovem do que a irmã do galerista, é Mizzy: “The Mistake”, o engano. Usuário de drogas, ele flana pelo mundo sem se fixar em nada, irresponsável aos olhos da família e portador de uma beleza perturbadora. A presença magnética do jovem lança Peter em uma cadeia de questionamentos: sobre seu negócio; sobre o entusiasmo perdido pela mulher; sobre a relação fria que mantém com a própria filha; sobre os artistas que representa.

De um lado, o marchand se divide entre o fascínio de um jovem que se recusa a encontrar um lugar no mundo e a força que esse mundo exerce sobre ele. Do outro, Peter se divide entre a consciência do caráter extraordinário da arte e a convivência com as regras do mercado. De ambos, ele espera um arrebatamento que só pode vir de maneira inesperada.



O metro nenhum, de Francisco Alvim

Em 18 de março de 2010 este livro começou a ser planejado. Convidado pela Companhia das Letras a organizar seus poemas posteriores a Elefante num novo livro, Francisco Alvim escreveu: “Combinado! Desde que com direito a mudar e pedir prorrogação no último minuto do último segundo. E preservado o sagrado direito de roer a corda por motivo ético indubitável”. Ao longo de um ano e pouco o poeta organizou, escreveu e reescreveu os 87 poemas agora publicados, gastando “a sola dessas sapatilhas que me calçam quando percorro a corda bamba deste metro nenhum”.

Em 13 de abril de 2011, o livro foi enviado à editora. “Até hoje mexi nele: hesitação quanto à posição de um ou dois poemas; mudança de um ou dois títulos... E vem um sentimento muito bom, muito doce: de amor pelo livro. O mesmo sentimento que provei em relação a cada um de meus livros anteriores e que só agora, vejo, reconheço com clareza. O que nada tem a ver com os apertos por que passei para botá-los de pé e a consciência dos inúmeros poemas frustros ou simplesmente ruins que contêm.

É, sem dúvida, um livro extraordinário, de um grande poeta brasileiro. Nele, “a poesia/ quando ocorre/ tem mesmo a perfeição/ do metro/ - nem o mais/ nem o menos -/ só que de um metro nenhum/ um metro ninguém/ um metro de nadas”.

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