Esse Inferno vai acabar - Humberto Werneck

sábado, setembro 10, 2011


Pra comemorar seu aniversário, o grupo Arquipélago Editorial preparou uma coleção chamada “Arte da crônica”. Como o nome nos indica, trata-se de uma reunião de cronistas, e o melhor – contemporâneos! 

O ponto de exclamação é justificável, pois considero a atitude da editora extremamente positiva. Sempre defendi a crônica como o mais eficiente estímulo para a formação de novos leitores. Isso porque a crônica é rápida, é fácil e é quase sempre divertida. Ela é próxima da nossa realidade. Usando as palavras do mestre Antonio Candido, ela nos conta da “vida ao rés-do-chão”.
E, por isso, a crônica é considerada um gênero literário inferior. Tendo seu espaço no jornal – que, depois de lido, vira embrulho de peixe –, ela depende de ações editoriais como estas para atingir a glória livresca. E coube ao jornalista e escritor Humberto Werneck fazer a estreia da coleção. Humberto, que já passou pelas redações dos maiores veículos de mídia impressa do país, é também um exímio cronista (atualmente, tem uma coluna no caderno Cidade, do Estadão, aos domingos), da linha direta de Minas Gerais – a mesma escola de Rubem Braga e Fernando Sabino, por exemplo.

A experiência de Werneck faz de “Esse Inferno vai acabar” um livro indicado não somente aos leitores (é claro), mas também aos escritores, porque é uma lição de comedimento lexical – não há excessos. Usando da imagem do poeta João Cabral de Melo Neto, se puséssemos as crônicas de Humberto no alguidar, quase nada boiaria. Assim, a coletânea é de boa leitura, leve, divertida. Destacam-se alguns personagens que se repetem, como a prima Solange, que gosta de falar difícil; a Dona Alzira, que jura ter um tarado munido de raio laser à espreita, e Samuel, que diz que o mundo vai acabar.


Um menino que vê a construção de Brasília, a busca pela coxinha de catupiry perfeita, uma Teoria Geral do Motel e causinhos que envolvem Vinicius de Moraes, Drummond, Sabino, Isabel Allende, Bob Dylan, Manuel Bandeira e Nelson Rodrigues são alguns temas que se salientam. Mas até mesmo os mais batidos, como os vizinhos, ficam interessantes quando observados através do olhar deste escritor.
Por fim, acho digno citar aqui trecho da orelha do livro, mesmo não sabendo quem escreveu isto: “O não acontecimento – o fato comezinho, a miudeza, a situação cotidiana – é a matéria-prima da crônica. Mas é a memória que, ao retirar do passado e reinventar essas pequenas histórias, dá a elas a graça e a beleza que as transformam em arte”. E “Esse Inferno vai acabar” é pura arte, mesmo. Mas vou logo avisando: o “Inferno” acaba rápido – se entrarmos naquela de “ah, vou ler só mais uma”, corremos o risco de terminá-lo em uma só sentada, o que é uma qualidade fundamental a um livro de crônicas.
“Não será surpresa para mim se dia desses o Vaticano anunciar o que tanta gente desconfia: que o Inferno não existe. Há quem diga que existe, e até funciona aqui perto de casa em dia de jogo do Corinthians. Não duvido. Mas me refiro à matriz, ao inferno propriamente dito, mobiliado com caldeirões de água pelando e animado por diabos magros (alguém já viu diabo gordo?) e espevitados, com chifres de bode e rabos em forma de seta, tridente em riste para espetar a carne fraca dos ímpios. Pois vai acabar, se é que algum dia existiu.”

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