‘Sick-lit’, a nova e polêmica literatura para adolescentes

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Doenças graves, depressão, anorexia, tentativas de suicídio e outros problemas que a fantasia costumava ignorar povoam o estilo.


Há algumas semanas, a lista dos livros infanto-juvenis mais vendidos nos EUA e na Inglaterra não é encabeçada por histórias com vampiros, princesas, hobbits, detetives ou fadinhas que soltam pó de pirlimpimpim, como vinha acontecendo nas últimas décadas. No topo dos best-sellers do jornal “The New York Times” para o gênero está “A culpa é das estrelas” (lançado no Brasil pela editora Intrínseca), de John Green, em que a protagonista é uma menina com câncer avançado. Em segundo lugar, aparece “As vantagens de ser invisível” (editora Rocco), de Stephen Chbosky, sobre um adolescente depressivo cujo melhor amigo cometeu suicídio e que, dependendo de como forem as coisas na escola, pode ir pelo mesmo caminho.

Esse tipo de história — voltada para adolescentes, mas trazendo personagens envoltos em doenças graves, depressão, anorexia, tentativas de suicídio e outros problemas realistas que a fantasia costumava ignorar — vem sendo chamado de sick-lit, algo como “literatura enferma” em português. É um termo que traz uma conotação negativa e muitas vezes ignora a qualidade dos livros, mas que tem gerado polêmica e pode indicar uma tendência.

De carona no fenômeno

A relação de títulos associados ao sick-lit inclui “Antes de morrer” (Agir), de Jenny Downham, uma trama que acaba de ser adaptada para o cinema sobre uma jovem doente que quer aproveitar seu pouco tempo para atividades como perder a virgindade. Inclui, ainda, “Red tears”, de Joanna Kenrick, sobre uma garota que se automutila, e “Never eighteen”, de Megan Bostic, sobre um adolescente doente que vai atrás das pessoas importantes de sua vida para se despedir, ambos ainda não lançados no Brasil. Os exemplos vão além, com livros como “Extraordinário” (Intrínseca), de R. J. Palacio, sobre um menino que nasceu com uma deformidade facial; e “Como dizer adeus em robô” (Record, previsão de publicação no Brasil para abril), de Natalie Standiford, uma história melancólica que envolve a morte de um adolescente.

A adolescência é uma fase mais down, em que os jovens sempre se cercaram de temas como esses. Não acredito que faça algum mal específico para o leitor. E não acho que o livro seja a única forma de contato dele com o assunto — afirma Julia Schwarcz, editora dos selos infantis e juvenis da Companhia das Letras. — Mas acho que existe uma diferenciação. Há livros muito bons, como o do John Green, que trata de sofrimento, mas tem uma história de superação. Só que alguns vieram na esteira, tentando se aproveitar do sucesso dos outros, e abordam a temática de forma mais gratuita. O segmento juvenil cresceu muito nos últimos anos, e vários autores tentam seguir a onda.

O debate sobre o efeito dessa sick-lit ecoou com mais força no mês passado, quando o jornal britânico “Daily Mail” publicou uma reportagem sobre o que chamou de “fenômeno perturbador”. “Enquanto a série ‘Crepúsculo’ e seus seguidores são claramente fantasia, esses livros de sick-lit não poupam detalhes ásperos sobre a realidade de doenças terminais, depressão e morte”, dizia o texto.

Na sequência da reportagem do “Daily Mail”, a editora de infanto-juvenis do jornal “Guardian”, Michelle Pauli, escreveu um artigo intitulado: “Evidentemente a ficção jovem é muito complexa para o ‘Daily Mail’”.

Não acredito que um livro paute as escolhas de um leitor. As pessoas já têm as tendências delas, independentemente da história que vão ler. E, além do mais, sick-lit é um termo muito ruim. Parece uma piada — diz Danielle Machado, editora da Intrínseca.

Essa discussão sobre o efeito dos livros nos leitores tem um rastro na História. No fim do século XVIII, Goethe teve seu primeiro grande sucesso literário com “Os sofrimentos do jovem Werther”, romance epistolar narrado por um artista, num tom melancólico e depressivo. As autoridades da época ficaram preocupadas com o livro, por conta de sua abordagem do suicídio.

Recentemente, outra trama de suicídio gerou debate, desta vez nos EUA, por conta do premiado “Os 13 porquês” (2007, lançado no Brasil pela editora Ática), de Jay Asher. Nele, uma menina deixa fitas cassete para os amigos explicando como cada um deles ajudou em sua decisão de se matar. A polêmica era inevitável.

— O que um livro pode fazer é antecipar um sentimento que já está dentro da pessoa. Mas o livro não é a causa de uma depressão — avalia o psicanalista Luiz Fernando Gallego. — A postura do “Daily Mail” nessa história é higienista. É a coisa de quem busca uma causa única para todos os males e tenta expurgá-la.
Gallego pondera, ainda, se a aceitação dessas tramas tem mais a ver com qualidade do que com estratégias comerciais de autores e editoras.

— Uma questão para se debater é se esses livros são boa ou má literatura. A boa literatura pode abordar o tema que for. Mas, quando se faz proselitismo acerca de um assunto, seja nazismo, homofobia ou suicídio de jovens, aí não se está fazendo boa literatura. A culpa não é do tema, e sim do autor que faz uma literatura ruim — diz. — Minha grande dúvida é se esses livros fazem sucesso porque são bons ou se é do interesse do mercado que eles sejam feitos. Esse público é suscetível a seguir tendências e pode estar sendo levado por uma novidade.

O que está em jogo, assim, é o rumo de um mercado que, pelo menos nos últimos 15 anos, foi dominado por histórias fantásticas, de “Harry Potter” a “Crepúsculo”. Se essa sick-lit — com esse nome terrível mesmo — pegar, haverá espaço para muitas polêmicas nos próximos anos.

Eu acredito em bons livros. E os bons livros serão lidos, seja de qual gênero forem — afirma Eduardo Spohr, sucesso junto ao público infanto-juvenil com obras como “A batalha do Apocalipse” (Verus Editora). — Já sobre a influência de um livro num jovem, eu me lembro que “Christiane F.” não formou uma geração de viciados. Quem leu costuma dizer que aprendeu muito e nunca tocou numa droga.


Você também pode gostar

9 comentários

  1. Eu acho interessante esse tipo de livro. Li "A culpa é das estrelas" e não achei ~pesado~  a ponto de fazer alarde. Até porque não tem aquele Quezão de trágico como outros livros com a temática câncer tem. Acho que por causa do tom de humor do John Green. Apoio adolescentes lerem mais livros assim; ficam mais maduros. A vida não é um mar de rosas e acho que, com tanta informação negativa que eles conseguem de outros lugares, pra quê jogar a culpa nos livros?  Só não quero que se torne viral porque vai ficar chato hahaha Igual os livros de fantasia, não aguento mais tantos livros com a mesma temática, gnt ://
    Amei o post.rascunhosecaprichos.blogspot.com.brbeijos

    ResponderExcluir
  2. Olá! Hoje estou passando só pra dizer que estou de volta a blogosfera e ficaria muito feliz se visitasse meu blog!

    Caso goste, adoraria que se tornasse seguidor, curtisse a página do facebook e/ou o twitter!

    ;*
    http://moniitorando.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Ótima postagem. Realmente, esse termo novo é bem ruim e forçado, coisa de marketing... Mas, o que importa é que o livro seja bom. Os bons serão lembrados.

    ResponderExcluir
  4. Oi Zilda!
    Desse gênero só li mesmo "Garotas de vidro", mas agora que li seu post, realmente têm sido lançados muitos livros assim.
    Estou aqui com o filme de "As vantagens de ser invisível", mas ainda não assisti. Só sei que meu primo leu o livro e disse que era ótimo.

    BjO
    http://the-sook.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Eu não sei os outros, mas eu AMO este gênero. Estou terminando de ler Extraordinário. PQP, é maravilhoso. Todo tipo de livro que tem o poder de mexer fundo no meu sentimento, de me fazer pensar, de me lembrar de alguém que passou pela minha vida e deixou alguma marca, tudo isso me envolve mais!!

    Minha filha acabou de ler ACEDE. Chorou rios, mas amou a leitura. E qual é o problema disso?? Vamos combinar que ter uma adolescente que prefere ficar em casa lendo um livro, do que ficar por aí fazendo besteiras... é perfeito. Independente do estilo literário. UÉ!!

    Enfim, adorei o post.

    Bjkasssssssssss

    ResponderExcluir
  6. Oi Zilda,

    achei muito interessante o post! Com certeza me encaixo entre os jovens que leem "sick-lit" e, particularmente, gosto muito de histórias assim. Para mim, a literatura é um modo divertido e envolvente de não só retratar a vida e sociedade humana, mas também de avaliar, criticar e refletir sobre elas. Doença e comportamentos fora do comuns fazem parte da vida, então porque não podem ser retratados nos livros? Acho que esse tipo de literatura deve sim ser apoiada e divulgada, mas contato que seja de qualidade. Qualquer livro, seja sick-lit, chick-lit, fantasia ou qualquer outro gênero, tem que ter qualidade quanto a trama e escrita para ser considerado literatura. Contato que a sick-lit mantenha os padrões dos outros gêneros, e não se torne apenas um show de horrores, ela será bem recebida por todos, principalmente pelos jovens. E não acho que o gênero possa gerar mal influencia sobre os jovens, e sim o contrário. Eu mesma sou uma amante de  histórias de assassinos e pessoas más, mas ler e ver sobre eles só reforça  minhas noções do que é certo e do que é errado. Não vou sair por aí matando pessoas só por que tal personagem vez o mesmo. 

    Bjs

    ResponderExcluir
  7. Há casos e Casos, cada adolescente vê a vida de uma forma diferente, os livros podem não ajudar 100%, mas, com certeza abre uma brecha para a dúvida e questionamentos. Livros de fantasia nos leva para um mundo imaginário onde acreditamos e sonhos com o melhor, mas livros que abordam a realidade, nos desperta para encararmos a vida como ela realmente é, como falei, casos e casos.
    Enfim, toda literatura é bem vinda.

    Ótimo post!
    Bjos
    Ni

    ResponderExcluir
  8. Este estilo literário é bem mais antigo do que se imagina, já que o romance Romeu e Julieta faz parte deste estilo. Só que na época se usava um outro nome para se denominar este estilo de livro. A meu ver, a única novidade é o novo título que se deu a ele "Sick-lit", o que na minha opinião é um termo bem estranho e depreciativo. Eu não acho que o fato de um jovem ler um determinado livro, vá fazer com que ele, mude sua personalidade e até mesmo comece a surtar e a se comportar de um jeito errado ou diferente. Comecei a ler livros de temática adulta, muito cedo, aos 12 anos e nem por isto, nunca me deixei influenciar por nenhum deles. É claro que no mundo de hoje, muita coisa seja diferente, mas eu acho que na verdade, é tudo modismo. E com certeza daqui a mais algum tempo, outro estilo literário irá surgir e este ficará novamente esquecido... 
    Lia Christo
    www.docesletras.com.br

    ResponderExcluir
  9. Li essa matéria no O Globo e gostei bastante, tanto que quis dar a minha opinião sobre o assunto e escrevi sobre isso em meu blog, se quiser dar uma passada lá depois...

    A única coisa que eu posso dizer é, além de quererem re-rotular algo, já que eu sempre conheci esse tipo de literatura como 'problem novel', sick-lit é um nome não muito agradável!
    E quanto mais as pessoas falarem e rotularem, mais vai chamar a atenção e isso sim pode afetar a mente dos adolescentes!

    Literature Diary

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita! Sua participação é muito importante.

SIGA-ME NO INSTAGRAM: @zildapeixoto