Resenha: Sangue Quente

segunda-feira, abril 08, 2013

Confiram a resenha de Sangue Quente, de Isaac Marion publicado pela editora Leya. Vocês nunca mais irão enxergar os zumbis com os meus olhos.


Sinopse: R é um jovem vivendo uma crise existencial - ele é um zumbi. Perambula por uma América destruída pela guerra, colapso social e a fome voraz de seus companheiros mortos-vivos, mas ele busca mais do que sangue e cérebros. Ele consegue pronunciar apenas algumas sílabas, mas ele é profundo, cheio de pensamentos e saudade. Não tem recordações, nem identidade, nem pulso, mas ele tem sonhos. Após vivenciar as memórias de um adolescente enquanto devorava seu cérebro, R faz uma escolha inesperada, que começa com uma relação tensa, desajeitada e estranhamente doce com a namorada de sua vítima. Julie é uma explosão de cores na paisagem triste e cinzenta que envolve a "vida" de R e sua decisão de protegê-la irá transformar não só ele, mas também seus companheiros mortos-vivos, e talvez o mundo inteiro. Assustador, engraçado e surpreendentemente comovente, Sangue Quente fala sobre estar vivo, estando morto, e a tênue linha que os separa. 


Autor: Isaac Marion
Editora: Leya BrasilTwitter | Facebook
ISBN.: 978858044033
Páginas: 256
Adicione: Skoob



O universo habitado por zumbis nunca havia me atraído até eu conhecer R., um zumbi com características comuns a todo zumbi, mas além de babar, grunhir e se arrastar por aí comendo cérebros, R. pensa, age diferente dos demais. 
No mundo pós-apocalíptico criado por Isaac Marion os zumbis são seres bem articulados e consideram a sua fonte de alimento, os “cérebros”, como finas especiarias. 

O autor não esclarece o motivo pelo qual as cidades chegaram a tal colapso e na verdade isso tem pouca importância. A premissa do livro é destacar o comportamento diferenciado dos zumbis. Eles pensam, recordam as memórias dos humanos após ingerir seus cérebros. 

Sem conhecer muito sobre esse universo mergulhei completamente e me entreguei a esses seres tão nojentos. Isaac Marion construiu um paralelo interessante de como os zumbis pensam sobre a condição humana, sobre o que é estar realmente vivo, dar a valor a pequenas coisas que, normalmente passam despercebidas na correria do cotidiano. 

R. é um jovem zumbi que habita um aeroporto abandonado com outros zumbis e seres denominados esqueléticos. Entre subidas e descidas na escada rolante, R. não tem muita coisa a fazer. Ele não se recorda de absolutamente nada de sua vida e a única coisa que o faz sentir “vivo” é recordar as lembranças alheias entre uma refeição e outra. 

Os humanos agora vivem isolados num estádio e costumam se organizar para recuperar medicamentos e outros utensílios para sobreviverem. Durante uma dessas incursões Julie, a personagem principal, Perry, o namorado e sua melhor amiga Nora são atacados pelos zumbis. Após atacar Perry, R. sente uma forte atração por Julie e resolve salvá-la. 

O romance entre o casal é bem inusitado. Fico imaginando como uma mulher em sã consciência seria capaz de beijar uma boca meio despedaçada? Definitivamente é esquisito! Mas como estamos falando de R., um zumbi gato, de olhos verdes, romântico, gentil...vai saber né! Não é difícil se apaixonar. Pois foi o que aconteceu comigo. Eu afirmo categoricamente: Estou perdidamente apaixonada por um zumbi! Não se assustem com meu aparente desequilíbrio! Quem nunca se apaixonou por um personagem?! 

O livro é narrado em 1ª pessoa intercalando-se com as memórias de Perry. Sangue Quente é um romance sobrenatural bem diferente do que estamos acostumados a ler. R. é um zumbi com pensamentos tão bem articulados, Julie não é aquele tipo de mocinha indefesa cheia de questionamentos tentando fugir da atração que sente pelo rapaz, digo zumbi. 

É engraçado como Isaac Marion faz uma breve analogia do comportamento humano, sua condição física em relação à de um zumbi:  

“Ainda estou nos primeiros estágios de apodrecimento. Apenas, a pele cinza, o cheiro ruim e os círculos negros embaixo dos meus olhos. Quase posso me passar por um homem. Vivo precisando de férias.” (pág.13) 

Certamente, tem muita gente perambulando por um aí como um zumbi. E as comparações cheias de sarcasmo seguem adiante. R. “reflete” inteligentemente as semelhanças aparentes de ser um zumbi em relação a sua vida enquanto estava vivo. 

“Pode parecer que não temos cérebros, que não pensamos, mas não é verdade. As engrenagens enferrujadas da coerência ainda funcionam, só que em uma velocidade cada vez mais lenta, até que o movimento externo fique praticamente imperceptível. Nós grunhimos e gememos, damos de ombros e acenamos com a cabeça e, ás vezes, até uma palavra ou outra saem de nossos lábios. Não é tão diferente de antes.” (pág. 14) 

Por mais que possa parecer tedioso um mundo habitado por zumbis o autor soube criar um universo diferenciado. Com um vocabulário de dar inveja a qualquer homem vivo por aí, R. é um zumbi muito articulado. É uma pena que a adaptação cinematográfica “Meu namorado é zumbi” tenha sido tão pífia,pra não dizer ridícula. Mas isso é assunto para outro post. O importante é destacar a construção de um personagem tão especial como R. 

“Não sei por que não conseguimos falar. Esta nuvem de silêncio sufocante que existe no nosso mundo pós-morte nos isola um dos outros como um vidro bem grosso daqueles de prisão. Preposições são dolorosas, artigos são árduos, adjetivos são conquistas incríveis. Será que esta mudez é mesmo uma deficiência física? Um dos muitos sintomas de se estar morto? Ou será que simplesmente não temos mais nada a ser dito?” (pág.21) 

Ainda não posso dizer que daqui pra frente vou passar a assistir The Walking Dead, mas posso afirmar que nunca mais enxergarei os zumbis da mesma maneira. Minha relação de amor com Isaac Marion perpetuará por muito tempo. Vou querer ler qualquer coisa que esse cara for escrever. 

A diagramação do livro está excelente. Durante a passagem dos capítulos encontramos ilustrações de partes do corpo humano, cada uma destacando diferentes transformações sentidas por R.A capa é linda e a revisão também não apresentou qualquer erro. Pra ficar perfeito mesmo só se Sangue Quente virasse uma trilogia. Sonhando com isso... 

Cinco estrelas? Não. Sangue Quente merece muito mais. Leitura recomendada!

Bora comentar,galera!
Até mais.

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2 comentários

  1. Eu amo esse livro! Acho a mensagem dele muito linda e essencial para a vida. A resenha ficou linda, carinhosamente e muito bem escrita!

    http://legadodaspalavras.blogspot.com.br/

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