Resenha: Nada - Janne Teller @editorarecord

terça-feira, junho 04, 2013


“Nada importa.”
“Você começa a morrer no instante em que nasce.”
Pierre Anthon está no sétimo ano e tem certeza de que nada importa na vida. Por isso, passa os dias sobre os galhos de uma ameixeira, tentando convencer seus companheiros de classe a pensar do mesmo modo.
No entanto, diante da recusa do menino de descer da árvore, seus colegas decidem fazer uma pilha de objetos dotados de significado, e com isso esperam persuadi-lo de que está errado. Mas aos poucos a pilha se torna um monumento mórbido, colocando em xeque a fé e a inocência da juventude.


Terrivelmente macabro. Indiscutivelmente brilhante. Assim podemos definir Nada, escrito pela dinamarquesa Janne Teller. Um livro que desconcerta qualquer mente sã que se habilite a lê-lo. Não há outro modo de descrever a aflição e o tremor que senti durante a leitura. Interessei-me pelo livro desde o anúncio de seu lançamento. Mas o fato é que a sinopse transmite vagamente a profundidade desta narrativa. 

O livro conta a história de um grupo de crianças (podemos considerá-los assim, já que todos cursam o sétimo ano e têm praticamente a mesma idade) decidem reunir numa serralheria abandonada uma pilha de objetos que representem algum significado em suas vidas. 

Pierre Anthon fora o responsável por tal iniciativa. Num belo dia ao se retirar da sala de aula Pierre decidira que a vida não teria significado e, por tal conclusão, ele habitaria os galhos do pé de uma ameixeira localizada no quintal de sua casa, a poucas quadras da escola onde estudara. A partir daí, Pierre passa a atormentar a vida de seus colegas de classe a caminho da escola e começa a questioná-los sobre o real valor das coisas. 

" Mesmo que aprendam algo e que pensem que são bons, sempre haverá alguém melhor que vocês.
[...] A voz de Pierre Anthon soava amistosa, quase compassiva. _ Você será uma estilista e andará  por aí em sapatos altos e bancará a esperta e fará com que os outros também se achem espertos, desde que vistam sua marca. _ Ele acenou com a cabeça em sinal de reprovação. _ Mas você vai perceber que é um palhaço em um circo inútil, onde todos tentam convencer uns aos outros de que é fundamental vestir-se de um jeito esse ano e de outro jeito no ano seguinte. E então descobrirá que a fama  e o grande mundo estão fora de você e que você está vazia por dentro e que, aconteça o que acontecer, isso nunca vai mudar." (pág.21)

Incomodados com a presente insistência de Pierre os jovens decidem tomar uma atitude onde pudessem provar para Pierre que ele não tinha razão, que as coisas tinham sim o seu devido valor. Mas tal decisão custaria muito mais que qualquer um pudesse imaginar. Estariam prontos para ceder algo verdadeiramente importante em suas vidas? O que inicialmente dera espaço a objetos comuns como uma simples vara de pescar ou um par de tamancos verdes, mais tarde daria lugar a coisas que jamais poderíamos imaginar. 

A narrativa de Janne é aterrorizante. O leitor ficará completamente hipnotizado por sua escrita. A autora criou um universo tão macabro, tão conflitante que não conseguimos nos desprender da leitura. Li o livro em 2h20min e após o término não tinha a menor ideia de como proceder, no que pensar, de como analisá-lo. O livro é uma espécie de filme de terror com thriller psicológico. Os personagens são bem delineados e cada um destaca-se por sua personalidade. 

A infância aqui representada por atitudes egoístas e cruelmente perversas definem o quanto a criação dos pais, a influência dos adultos pode colaborar para a degradação do perfil psicológico de cada um. A autora conduz de forma inteligente um questionamento plausível sobre o valor de coisas que insistentemente prejulgamos necessárias e insubstituíveis. O quanto às coisas são descartáveis, isso vale também para os sentimentos e, principalmente para as pessoas. O fato é que até hoje nenhum livro havia mexido tanto comigo a ponto de me desconcertar. 

O livro é narrado pelo ponto de vista de Agnes, uma das garotas da turma 7A. Através de seus relatos vamos acompanhando o desenrolar de uma história sinistra onde a frieza e a perversidade toma conta. Causa certa estranheza que tais atitudes perveras partam de mentes tão relativamente jovens, mas a verdade é que Janne Teller soube representar muito bem o lado mais cruel e egoísta do ser humano.

A diagramação do livro é simples. A capa do livro é linda, com tons neutros e uma imagem envelhecida representando a tristeza fúnebre contida no livro. 

Nada é o tipo do livro que foi escrito para chocar, para deixar o leitor confuso, inebriado, perplexo. Agora compreendo o motivo pelo qual ele fora banido na Escandinávia na época de seu lançamento, no ano de 2000. A história criada por Janne é para deixar qualquer um com medo da sua própria sombra. Apesar de tudo, hoje o livro é aclamado mundialmente e todos podem reconhecer o talento dessa escritora. A verdade é que a sociedade não está preparada para encarar seus monstros, ainda que eles estejam vestindo pele de cordeiro. Os valores precisam ser resgatados desde já, para que ficções como esta não façam parte da nossa realidade.

Dizer que o livro é TUDO seria uma dicotomia palpável já que nenhum outro termo se enquadraria melhor para defini-lo. Por isso, “Nada” é realmente TUDO.  É formidável. Intenso. Perfeito. 

Leitura mais do que recomendada e obrigatória.




FICHA TÉCNICA
Título: Nada
Autora: Janne Teller
Editora: Record - @editorarecord
ISBN: 9788501096685

Nº de páginas:127



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16 comentários

  1. OI Amiga!
    Uauu, que resenha hein!
    Pelo que vc diz o livro parece ser ótimo e muito intenso.
    Confesso que ainda não tinha lido resenhas dele.
    Nada e Tudo, gosteii.
    Adorei sua resenha!!

    Beijinhos*

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  2. Onde é que tava este livro que eu nunca vi???
    Adorei, adoro livros assim!!! Vou atras dele agora mesmo.
    Amei a dica!!

    Bjkas

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  3. Uau, que resenha incrível! Estou com o livro aqui engatilhado para ler, vou começar hoje mesmo. Fiquei hipnotizada pela sinopse quando a li, mas a sua resenha transmitiu muito mais, aumentou minhas expectativas. Um livro macabro que choca e nos deixa sem palavras. Exatamente o que eu quero sentir!

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  4. Eu já tenho uns surtos por livros com mesclagem psicológicas, simplesmente amo, mas esse com absoluta certeza me deixaria doida. Mas no sentido positivo. Adorei a resenha, sério. De modo que pude entender o livro, e ao mesmo tempo fiz uma analogia com a minha vida (já falei que vivo das analogias?, haha, claro que já falei). Eu deveria está nesse livro, deveria fazer parte. Sinto que é um livro onde os valores, sentimentos e etc., são tratados de forma perversa, cruel e ao mesmo lindamente posto no papel.

    Estou seríssima hoje, não me tire do sério, por favor.

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  5. Resenha bárbara! Adorei! Não conhecia nem o livro e nem a autora e com certeza me interesse e vou querer ler! Parece realmente macabro e intenso! Pra lista de leituras já! Esta semana estou tendo muitas surpresas com livros que eu nunca tinha ouvido falar!

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  6. Parece um livro intenso mesmo. Eu não dava nada pela capa (embora a sinopse tenha me intrigado muito, lá na livraria).

    Abraço!

    Raquel Moritz
    www.pipocamusical.com.br

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  7. Não sei se leria. tenho um medinho para livros com toques aterrorizantes! Rsrsrs
    Ótima resenha. Beijo

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  8. Eis o meu tipo de livro. Adoro livros aterrorizantes e com inteligência no roteiro.
    Já gostei!
    Mas 127 páginas? É fino assim mesmo?

    bjus
    terradecarol.blogspot.com

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  9. Oiee

    Fiquei um pouco com receio de ler o livro não sou muito fã de história macabras!

    Beijos

    Andressa
    http://livrosechocolatequente.blogspot.com.br/

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  10. Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom,
    li algumas coisas folhe-ei algumas postagens,
    gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha.
    Deixo-lhe a minha bênção.
    E que haja muita felicidade e saúde em sua vida e em toda a sua casa.
    PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.

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  11. Oi, Zilda!
    Tudo bem???
    Espantei com seu tempo de leitura rsrsrs 2 horas é rapido demais. Não tinha visto nada além da capa do livro, e jurava que ele era um romance. O que mais me deixou instigado é que vc louvou o livro e ele tem só 127 páginas. Agora fiquei com vontade de ler, adoro esse gênero meio macabro/thriller.
    Beijos
    Descobrindolivros.blogspot.com.br

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  12. Uau Zilda que resenha fantástica, jamais imaginei que o livro fosse isso "tudo" que você descreve.A forma com que você o classificou de forma macabra me deixou até meio assustada, mas é uma leitura que com certeza irei ter e ver realmente o que esse livro tem...parabéns pela resenha.

    BjOs!!!

    @jannagranado
    http://livrospuradiversao.blogspot.com.br

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  13. Caramba Zilda, que resenha instigante! Até eu que não costumo ler terror ou thrillers psicológicos fiquei tentada! Vou recomendar à uma amiga que adora o gênero =)
    Beijos... Elis Culceag.
    * Arquivo Passional *

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  14. Adorei sua resenha, e me identifiquei com o livro, acho que vou gostar!
    Ana.
    http://umlivroenadamais.blogspot.com.br/

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  15. Adorei a resenha!!! a sinopse do livro realmente não me chamou muita atenção, mas a capa do livro é linda, foi o q d inicio me despertou curiosidade.. e fiquei c/ + vontade de ler ainda depois de ler a resenha..
    bjs

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  16. Muito boa a resenha! Fico em dúvida quanto aos valores a que se deve apegar. São esses mesmos valores que as crianças reproduzem até o nível do grotesco. Em cada ponta da história da "civilização" encontramos a barbárie. Talvez sob novos parâmetros morais encontremos uma coletividade que dê sentido a isso tudo. Ou que pelo menos possamos nos preocupar mais com a existencia que vom a sobrevivencia... Sei lá. De qualquer forma, parabéns pela resenha!

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