|Resenha| As Sete Vidas do Amor - Carla D'alessio @Bertrand Brasil

terça-feira, outubro 08, 2013


Faltam sete dias para o Natal e, enquanto confessa seus pecados e insatisfações ao padre, Ada depara com o olhar ambíguo de um persa preto aos pés do sacerdote. Sem que ela saiba o real motivo, nota-se roubando o felino e levando-o para casa. Assim, Bemot, o gato surrupiado na sacristia, está fadado a assistir ao desenrolar das tramas da história, enquanto as protagonistas passam por situações difíceis e se veem forçadas a enfrentar um novo começo. É o que acontece com Ada, que tenta gostar de si mesma, abandonando os anos de descuido e indiferença que até então marcaram sua vida. Ou Gilda, constantemente em busca de alguém que compense sua maternidade fracassada; de Nina, que tem o corpo forte de uma atleta, mas os medos de uma adolescente; de Mara, advogada agressiva que, no entanto, tropeça no amor; com a fútil Bea e, finalmente, de Zoja, que se mudou da Ucrânia para a Itália tentando melhorar de vida. 
Tendo como pano de fundo uma Nápoles alheia aos lugares-comuns, Carla D Alessio constrói uma comédia de tirar o fôlego, cheia de coincidências, amarga e, mesmo assim, divertida, tipicamente italiana. Uma história comovente e requintada, pois o amor – mesmo quando parece ter perdido qualquer empolgação, quando não faz senão arranhar – tem muito mais que uma só vida. Tem sete vidas.


Muitos são os critérios que normalmente utilizo para escolher um livro. Primeiramente a sinopse tem que ser interessante, tem que dizer algo sobre o livro sem que necessariamente solte spoilers em relação ao conteúdo. A capa ajuda muito neste processo, mas não é um fator determinante. E por fim, pesquiso por opiniões sobre o determinado livro. No caso de As Sete Vidas do Amor não encontrei resenhas a seu respeito e por isso me baseei apenas pela sinopse e respectiva capa. É como um tiro no escuro. Não sabemos se iremos acertar o alvo. É como fazer uma aposta. Bem, sinto dizer, mas, não foi dessa vez. Carla D’alessio surrupiou meu digníssimo tempo. Esse é o problema de se gerar muita expectativa sobre alguma coisa. Coloquei tanta fé na história da autora para no fim levar um balde de água fria no quengo..aff!

De todos os gêneros, o romance é o meu favorito. Gosto de imaginar situações reais, como se eu pudesse vivenciá-las através dos personagens e por esse motivo esperava que a história de Carla pudesse me cativar. Mas, infelizmente a autora não conseguiu corresponder minhas expectativas. 

As Sete Vidas do Amor é um romance que faz o estilo comédia-noir. Nunca havia lido nada parecido e, talvez por esse motivo demorei tanto a me adaptar à leitura. Esse tipo de narrativa segue um ritmo normalmente ágil e requintado, meio irônico, ou seja, a autora opta por descrever determinadas situações com um certo sarcasmo. Mas o que de fato me incomodou foi a transição dos personagens que protagonizam a história. 

O livro conta a história de Ada, Gilda, Nina, Mara, Bea e Zoja, além de Bemont, o gato e seus respectivos companheiros. A premissa do livro baseia-se em relatar e descrever como cada uma dessas mulheres enfrenta seus medos, aflições e como elas tentam superá-las. Ada é a peça central desse quebra-cabeça maluco que é a narrativa de Carla D’alessio. Pois é exatamente assim que a narrativa dela se apresenta. 

Há sete dias que antecede o Natal, Ada vai à igreja para se confessar e chegando ao local ela encontra Bemont, um gato persa preto que habita a sacristia do padre Dom Luigi.
Ada está farta da vida que leva. Casada com Giulio há muito anos, o marido é praticamente um ogro e a ignora completamente. Ada sente-se hipnotizada pelo olhar de Bemont e decide surrupiá-lo. Ada foge sem ao menos olhar para trás envolta numa confusão terrível graças ao pequeno furto que praticara.

Bemont é um gato como outro qualquer. Preguiçoso, impetuoso, e cheio de vontades. Porém, Ada enxerga no gato a oportunidade de transformar o seu cotidiano. Só o que Ada não esperava é que o convívio com Bemont pudesse afetar tanto o seu casamento, logo sua vida não seria mais a mesma. Ada é mãe de Nina. O relacionamento de mãe e filha está longe de ser o ideal. Nina vive na Espanha e trabalha como treinadora de golfinhos e com a aproximação do feriado natalino a família espera se reunir novamente, mas esse encontro promete muitas surpresas. 

Carla D’alessio constrói uma narrativa atípica e bem diferente do que estamos acostumados. A maneira como ela apresenta seus personagens é um pouco confusa. Se o leitor não ficar atento a certos detalhes, possivelmente ficará perdido entre um capítulo e outro. Ela começa a descrever sobre determinado personagem e de repente acontece uma interrupção abrupta sem que o leitor perceba tal transição. Os capítulos são divididos e apresentados conforme os sete dias que constituem a semana. 

O primeiro capítulo inicia-se na segunda-feira que antecede o Natal e o consequentemente, o livro termina na véspera do feriado. Fiquei completamente perdida em vários pontos da narrativa, pois a autora interrompe o fluxo natural das coisas e passa a narrar sobre outro personagem automaticamente sem ao menos criar uma conexão entre eles. Só consegui pegar o fio da meada após a leitura sofrível de 120 páginas. Depois disso, foi só alegria. #sóquenão

O livro em questão possui muitos personagens e apresenta ao todo seis protagonistas. As Sete Vidas do Amor possui um título clichê e um enredo ambíguo que até o presente momento não faz sentido algum. Carla D’alessio descreve como cada uma de suas personagens lida com seus conflitos existenciais. É evidente que a autora tenta desmistificar a fragilidade do sexo feminino há muito tempo estigmatizada pela sociedade. Porém, ao mesmo tempo em que suas protagonistas apresentam a força do sexo feminino, ela não esconde a fragilidade que cada uma possui. Talvez, seja este um dos pontos mais positivos de sua narrativa: compor personagens aparentemente fortes e, indubitavelmente frágeis. Ada e Zoja foram as personagens mais expressivas da narrativa.


"Guardar cuidadosamente o rancor num canto e recomeçar a viver os dias, um depois do outro, sem emaranhar demais os pensamentos, é a melhor solução, a mais aconselhável."


O discurso de Carla é mais ou menos o seguinte: "Os homens são todos uns canalhas!" Possivelmente, muitas leitoras irão se identificar com a apresentação e descrição da autora em relação ao seus personagens masculinos que possuem tanto destaque quanto suas protagonistas.

Outro ponto bem interessante da narrativa é o elo criado para unir os personagens. Em determinado momento pude compará-la ao poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, pois a estrutura com que os personagens e a história se conectam é bem parecida. Ada é mãe de Nina que não mantém uma boa relação com a mãe. Cansada da sua vida um tanto monótona Ada vai passar uma temporada na casa de Mara, uma amiga que Nina com quem já dividiu o apartamento, que agora divide o apartamento com mais duas mulheres: Bea, uma jovem fútil e que faz tudo para alcançar a fama e Zoja, uma ucraniana que vive em Nápoles clandestinamente longe da família. E por fim, Bemont – o gato, que transita a história de forma pouco expressiva.

O fato de Bemont ser apenas uma âncora pra a história me incomodou bastante, pois a autora deixa entender várias coisas e no final ela simplesmente omite fatos importantes. O final do livro é simplesmente ridículo. Por isso, não condenarei o livro por um todo. Como disse anteriormente, há de se considerar a escrita diferenciada da autora e, acima de tudo, compreender a narrativa como uma típica comédia- noir italiana. 

Para ilustrar melhor a dinâmica da história façamos o seguinte: Pensem naqueles filmes europeus antigos. Depois, imaginem um núcleo grandioso e que todos os personagens coincidentemente tem alguma ligação, ainda que não saibam dela. E por fim, imagine cenas curtas onde todos falam ao mesmo. Todos falam, mas ninguém se entende. As Sete Vidas do Amor é mais ou menos isso. Personagens que têm sua moral sempre colocada à prova, que tomam atitudes um tanto questionáveis, ou seja, que o fim sempre justifica os meios. Acredito ser essa a mensagem central a ser passada por Carla D’Alessio.

Em relação a diagramação tenho pouco a acrescentar. A fonte utilizada facilita a leitura. A capa é bem bonitinha, meio aveludada e com letras em alto relevo prateada. Para quem curte gatos, provavelmente vai achá-la uma gracinha. Agora, o título não me convenceu. O título As Sete Vidas do Amor faz um contraponto entre a quantidade (metafórica) de vidas de um gato com a durabilidade e a possibilidade do amor. Cabe aqui o leitor fazer tal ligação, pois o conteúdo em si trabalha este aspecto separadamente, quase que imperceptível.

Podemos resumir As Sete Vidas do Amor como uma leitura interessante, bem escrita e inteligente. Porém, um pouco cansativa e complexa em determinados momentos. De qualquer maneira, sempre há algo que possamos tirar proveito não é mesmo?
Fica o convite para que cada um tenha sua própria percepção.




FICHA TÉCNICA
Título Original: Le sette vite dell’amore
Autor: Carla D'Alessio
Tradutor: Mario Fondelli
Editora: Bertrand Brasil
I.S.B.N.: 9788528617764
Número de Paginas: 378

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5 comentários

  1. Mulher que resenhão!! rsrsr

    Ah! Gostei! Porém, estou num momento "leituras pesadas". Acho que é a tpm, então esse tipo de romance só cairia bem mais pro meio do mês, rs. Ai, eu sou assim.

    Mas a resenha tá lindona!!

    Bjkas

    Lelê Tapias
    http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  2. Com certeza vou dar uma chance :D
    Valeu pela dica, adorei a resenha

    Beijo
    http://heysisteraj.blogspot.com.br/

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  3. Adoro escolher um livro no escuro. Felizmente em geral acerto rs
    Aliás, embora eu goste de ler livros que estão em alta, prefiro os menos conhecidos. Sempre me surpreendo.
    Apesar da opinião controversa, fiquei com vontade de ler o livro.
    Sua resenha o fez ficar interessante.

    Beijos

    www.meumeiodevaneio.com.br

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  4. Que capa interessante,
    adorei sua resenha o livro parece ser muito bom
    apesar de não ser perfeito, não leria ele por agora, mas com
    certeza o leria algum dia

    http://soubibliofila.blogspot.com.br/

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  5. Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
    reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
    Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    decerto que virei aqui mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
    siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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