O menino que roubava livros

quinta-feira, fevereiro 13, 2014


Na última quinta feira, dia 6, um jovem foi preso acusado de roubar três livros da Livraria Cultura em Salvador. Morador do bairro Paripe, localizado no subúrbio de Salvador, o jovem Alex Santana Souza de 19 anos confessou que já havia roubado outros dez livros na mesma livraria. 























A notícia é bizarra, mas infelizmente não é. Fico a pensar em diversos fatores que levaram o jovem a cometer tal "crime". Por favor, não estou aqui para fazer qualquer apologia ao crime. Longe de mim! Mas fica um pergunta no ar: Até quando iremos nos chocar? Este é o retrato social em preto e branco do país em que vivemos. Fato.

Nós, blogueiros literários que levantamos todos os dias dispostos a falar, respirar e propagar a literatura sabemos qual o valor da leitura em nossas vidas. Por isso, uma notícia que deveria ser banal, pois trata-se de mais um crime como tantos outros que já estamos acostumados a conviver acaba nos chocando tanto. Independentemente da atitude errada que este jovem tenha tomado, a sua ação deve ser avaliada cautelosamente.

A primeira coisa que poderíamos dizer é: Ah! Ele não precisava roubar! Poderia ir a um sebo. Ou pegar emprestado com um amigo! Ou numa biblioteca municipal! O fato que é normalmente acabamos por julgar a atitude alheia sem o devido conhecimento da situação.


No momento em que o best-seller A menina que roubava livros toma conta do cenário com sua recente adaptação cinematográfica sendo exibida atualmente em todas as salas de cinema do país e livro sendo relançado pela Intrínseca, editora responsável pela publicação no pais, podemos fazer uma ponte entre a ficção e a realidade. 


O best-seller “A menina que roubava livros” aborda de maneira direta e impactante as mazelas do nazismo, em uma época de perseguição a comunistas e jovens que se rebelavam contra o genocídio de judeus por Hitler. Na obra, uma jovem aprende a ler e se apoia nas publicações para obter um sopro de esperança no futuro. E o que isso tem a ver com o Brasil? Bem, enquanto a obra de Markus Zusak trata de uma história fictícia, aqui ela é real, e guardadas as devidas proporções, também impressiona.

Um menino foi preso em flagrante na região Nordeste quando roubava três livros, em uma livraria no Salvador Shopping. Há informações de que a fiança teria sido fixada em dois salários mínimos e o jovem teria roubado os livros por não ter dinheiro para comprá-los. Pior, ainda confessou ter levado outras obras, com conteúdo pedagógico.

No contexto social, as convenções indicam que um meliante deve ser punido, pois há a ideia de se manter um perfil corretivo, com a intenção de reeducar o indivíduo para que não volte a cometer delito. Há, ainda, o caráter exemplar, com a intenção de desincentivar outras pessoas a cometerem atos semelhantes. Apesar disso, imaginar um jovem de 19 anos preso por esse motivo, realmente é alarmante.

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia. Com os pensamentos soltos, ela ganha um tipo de sobrevida em meio ao caos, pois amplia o vocabulário e cria uma espécie de Aurélio, usando as paredes de um sótão como o seu grande quadro negro. O drama fez tanto sucesso que ganhou até uma adaptação para o cinema, e o longa-metragem ainda pode ser conferido, pois ainda está em cartaz.

A fatalidade no caso da vida de Liesel era a de ter sido abandonada pela mãe, após ter perdido o irmão mais novo. Ela ainda tinha de viver aos sobressaltos, pois temia a aproximação de militares da Gestapo. Já o jovem que mora na Bahia, e que fora perseguido por policiais de verdade, sentiu na pele o resultado de suas escolhas. Sem apologia ao crime, longe disso. A ideia aqui é discutir a respeito da condição humana e de como a sociedade reage em um caso como esse. Afinal, do ponto de vista dos negócios, o que caberia à rede de livrarias fazer? É complicado.

A família do jovem preso teve de angariar dinheiro para pagar a fiança e tirá-lo do Complexo Penitenciário da Mata Escura. O garoto brasileiro informou que viu no furto uma das poucas opções para adquirir os livros, já que a sua mãe não tinha condições de comprá-los. E confessou ainda o roubo de cerca de dez outras obras, todas para estudar. No best-seller sobre Liesel, contado de maneira exótica por ser narrado por ninguém menos do que a morte, é difícil não se chocar. Já no drama lado B — justamente de Brasil —, a demora dos royalties do pré-sal para a Educação poderá custar muito caro, ao que parece. O preço pode ser aquele a ser pago por uma geração inteira de pessoas carentes, e cada vez mais marginalizadas pela falta de oportunidades, onde se verifica um abismo social a perder de vista.


Fonte: DCI

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4 comentários

  1. OI amiga!

    Eu não tinha visto essa noticia ainda, fiquei de boca agora...


    Beijos*

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  2. Não vi a noticia, mas concordo com o seu relato apresentado no post, parabéns pela iniciativa de mostrar a realidade brasileira.
    bjs
    Joane

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  3. Oi Zilda, o pior é que era para estudar, não acho que deveria ser preso, deveriam repensar muitas coisas sobre nossa sociedade, e depois dessa ele deveria ganhar muitos livros para o estudo, afinal foi por uma boa causa, ao meu ver né... Afinal ele só queria a oportunidade de aprender mais e os livros hj em dia estão caros demais!!


    Beijos Mila
    http://www.dailyofbooks.blogspot.com.br/2014/02/resenha-de-repente-acontece.html

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  4. Nossa. Eu tô chocada com essa notícia. Nós lemos milhares de histórias todos os anos, mas nunca imaginamos que elas possam se transportar da páginas para a vida real.

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