|Resenha| Nossos Ossos - Marcelino Freire @editorarecord

sábado, fevereiro 01, 2014


Heleno é um dramaturgo que saiu ainda jovem da sua cidade de origem, a pequena Sertânia, no interior de Pernambuco, onde vivia com os pais e os oito irmãos.
Em São Paulo conquistou prestígio, dinheiro e prêmios.
Quando o garoto de programa com quem mantinha um relacionamento é assassinado, o protagonista assume a missão de levar seu corpo até a família do rapaz cuja origem também é o interior de Pernambuco.
O acontecimento inesperado faz com que Heleno reflita sobre suas conquistas profissionais, seus amores, suas relações interpessoais e sua vida como um todo.




Por que ler Nossos Ossos?

Porque o autor é nada mais nada menos do que o gênio das palavras. Vencedor do prêmio Jabuti em 2006 com o livro Contos Negreiros lançado pela Record. Aquele tipo de escritor que arquiteta minuciosamente cada pedacinho da narrativa, que seduz e hipnotiza com sua escrita rítmica e melancólica. Um cara esquisito e desbocado que toca na ferida e sabe descrever como poucos sobre questões polêmicas? São tantas as qualidades de Marcelino como escritor que eu seria capaz de enumerá-las num livro. O fato é que toda vez que leio suas obras eu me sinto meio que fora do eixo.

Nossos Ossos conta a história de Heleno de Gusmão, dramaturgo de meia idade, natural de Sertânia, uma pequena cidade do interior de Pernambuco. Heleno é o caçula de uma família de nove filhos e que se destaca desde a infância como o artista da família. Heleno sai de Sertânia rumo à São Paulo em busca de Carlos, o seu grande amor.

Recém-chegado à São Paulo, Heleno tenta se virar como pode, se arranjando como tantos imigrantes que chegam à cidade grande com a promessa de melhorar de vida.
Longe de Carlos, Heleno irá descobrir os prazeres da vida noturna que a cidade grande pode oferecer. Freguês assíduo de inferninhos e das esquinas do sexo fácil e barato Heleno encontrará conforto nos braços de Cícero, um garoto de programa que Heleno jura ser diferente dos outros. 

Como de costume em suas narrativas, Marcelino Freire fala sobre questões tida como polêmicas, tais como o homossexualismo. Mas como ele costuma dizer em suas entrevistas ele gosta mesmo é de escrever sobre a vida e que não há nada de polêmico nisso. Por isso, se você ainda não teve a oportunidade de conhecer a maneira como o autor aborda o assunto esse é o momento.
Nossos Ossos segue a linha do romance policial, porém com suas particularidades. A começar por se caracterizar-se como uma “prosa longa”. É como se estivéssemos assistindo a um filme aonde são lançadas as imagens e suas falas correspondentes. A idealização de cada cenário até a caracterização dos personagens secundários.


A oralidade típica do nordestino está presente ao longo de toda narrativa. Assim como em seus contos Marcelino brinca com as rimas em seu primeiro romance, o autor transborda criatividade e poesia.

O jogo das palavras está presente a cada parágrafo demarcando sua importância dentro da narrativa. Não há nenhuma palavra solta. Tudo está conectado. 
A primeira impressão que se tem é de que estamos lendo um dos seus contos. A linguagem é rápida, fluída, rítmica. E por esse motivo Nossos Ossos torna-se um romance tão diferenciado. A escrita poética é quase que hipnótica.


O mote do livro se dá a partir da morte de Cícero, o Boy, assim chamado por Heleno. Boy é encontrado brutalmente assassinado e caberá a Heleno despachar o corpo do rapaz para sua cidade natal.

A trama de Marcelino apresenta diversos personagens bem característicos da noite paulistana. Entre travestis, michês, atores, putas, policiais e tantos outros personagens Nossos Ossos chama atenção do leitor para cada tipo particular. Não há simplesmente um apelo sexual em relação aos seus personagens e, sim um olhar diferenciado sobre cada um. Alguns são mais explorados propositalmente, como por exemplo, a travesti Estrela que não mede esforços para conseguir a tão sonhada prótese nos seios. 

A trajetória de Heleno até Poço do Boi, cidade do interior de Pernambuco é quase que uma odisseia. É o momento do resgate do personagem central com sua própria alma. 


O livro é dividido em duas partes: Parte Um, Parte Outro. Nota-se o jogo de palavras mais uma vez presente para confrontar o leitor. Quem conhece um pouquinho da história de Marcelino provavelmente irá se perguntar até que ponto Nossos Ossos é ficção. Pois são inúmeras as “coincidências” que unem criador(Marcelino) x criatura(Heleno). Como o próprio autor revelou Nossos Ossos não se trata de um livro autobiográfico e sim, um livro autopornográfico, já que o autor assim como seu personagem já praticaram muitas sacanagens em comum. Ta aí mais um motivo pra se esbaldar com as histórias de Marcelino Freire. Sempre tão espirituoso... aff!

De fato Marcelino cria uma narrativa fora dos padrões estilísticos. Com toda sua agilidade e perspicácia Marcelino conduz o leitor a uma experiência surreal. 

Nossos Ossos descreve a vida de um personagem que sai de sua terra natal rumo à cidade grande em busca de um grande sonho: a realização e o reconhecimento profissional. Desde o início da narrativa esta visão relativamente utópica é apresentada. O êxodo rural aqui mais uma vez é discutido e apresentado assim como acontece na vida real.


"Minha dramaturgia veio daí, hoje eu entendo, desses falecimentos contruí meus personagens errantes, desgraçados mas confiantes, touros brabos, povo que se põe ereto e ressuscitado, uma galeria teimosa de almas que moram entre a graça e a desgraça." (p.27)


O final do livro é surpreendente e deixa o gostinho de quero mais. A edição do livro está espetacular. Mais uma vez a editora Record dá um show. Capa linda, fonte agradável e revisão impecável.

Se você está à procura de algo realmente diferente, impactante e que lhe tire da tal zona de conforto, definitivamente pare de fazer tudo o que você está fazendo e busque, compre, pegue emprestado, que seja! Mas LEIA Nossos Ossos. Vocês não irão se arrepender! Mas se eu não consegui te convencer não tem problema, minha consciência tá tranquila. 

Marcelino Freire é vida. O resto é conversa fiada.



[...] quando crescer eu quero ser várias pessoas, ir fundo, escrever para me sentir, assim, o dono do mundo, o rei dos animais.”



Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000) e BaléRalé (Contos, 2003), todos publicados pela Ateliê Editorial. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo Editorial. Mais informações sobre o autor em marcelinofreire.wordpress.com e, também, em www.twitter.com/marcelinofreire.


Fonte Imagens: Bacanudo

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5 comentários

  1. Ainda não tinha ouvido falar desse livro e parece ser bom para ler.

    Sweet of Cherry

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  2. Oi, Zilda!
    Obrigada pela dica de leitura!!

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  3. Oi, Zilda!
    Ainda não conhecia o livro.
    Sua resenha está ótima, mas confesso que o livro não chamou a minha atenção. Mas fico feliz por você ter gostado!

    BjO
    http://the-sook.blogspot.com.br/

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  4. Oieee =)
    confesso que se fosse pela capa não leria o livro, sou medrosa até na hora de ler. Mas, fiquei muito curiosa com a tua opinião, e se tiver a oportunidade de ler, eu venha ficar surpreendida como você!
    Beliscões da Máh ♥
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  5. O livro é lindo.
    A escrita tem quase um estilo de fluxo de pensamento.
    Ótima resenha. Descreveu tudo que eu pensava.

    http://pablotorrens.wordpress.com/

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