|Resenha| Perdão, Leonard Peacock - Matthew Quick @intrinseca

sábado, maio 23, 2015


Nas últimas 24 horas tornei-me refém de Leonard Peacock. Rendi-me completamente aos encantos de Matthew Quick e sua escrita brilhante e fascinante porque é exatamente isto o que ele apresenta em Perdão, Leonard Peacock

Eu já havia lido algumas opiniões a respeito do livro em questão, mas confesso que no momento em que li tais opiniões nenhuma delas despertou a minha atenção. Acredito que não era o momento. Para ler e, consequentemente compreender a história criada por Matthew Quick era preciso desligar-se de tudo que estava ao meu redor. É preciso se entregar inteiramente à história e, decidi que era o momento certo para ler o livro. Essa é a minha primeira experiência com o autor e posso dizer que foi mágica. 


"Por que as pessoas só gostam quando você faz perguntas que elas já responderam um milhão de vezes e odeiam quando você as surpreende? Eu adoro perguntas que me deixam perplexo. Gosto muito de passar dias a fio pensando nas possíveis respostas. Será que as pessoas não gostam mais de pensar, ou eu é que sou simplesmente uma completa aberração?"

Perdão, Leonard Peacock é um livro intenso que desperta sentimentos da mesma grandeza. É possível chorar com a tristeza e solidão descrita por Leonard. Mas ao mesmo tempo, Leonard consegue arrancar risos com suas ideias e atitudes impulsivas. Não se deixe enganar pelas aparências ao supor que o livro irá retratar a história de um jovem depressivo e melancólico. Nada na escrita de Matthew Quick é superficial, raso, impessoal. O livro levanta questões atuais e sérias que abordam a solidão de um jovem esquecido pela família e ignorado pelos colegas de classe. Perdão, Leonard Peacock vai além do óbvio, do previsível. Não estamos aqui falando de mais um livro que tem o bullying como tema principal. Estamos falando de algo bem mais sério. O tema principal do livro é a depressão e o estado emocional de um jovem que clama por ajuda.

Leonard Peacock é um jovem solitário e deprimido que decide por um fim a sua vida justamente na data de seu 18º aniversário. Leonard planeja primeiramente matar seu ex-amigo Asher e logo em seguida suicidar-se. Tudo está meticulosamente planejado na mente de Leonard. A arma utilizada será uma pistola P-38 usada pelo avô na 2ª Guerra Mundial. Mas, antes de dar fim ao seu sofrimento, Leonard decide presentear as quatro pessoas que ele mais considera em sua vida.

"Eu me pergunto qual a idade apropriada para a gente parar de se lembrar dos aniversários dos outros. Quando paramos de precisar que as pessoas ao nosso redor reconheçam o fato de que estamos envelhecendo, mudando e ficando cada vez mais perto da morte?"

Walt é o primeiro deles. Walt é um velho que vive sozinho e que passa a maior parte de seu tempo sentado na poltrona de sua casa assistindo os filmes em preto e branco de Bogart. A sua relação com o vizinho é muito próxima. Leonard tem em Walt a figura paterna, o carinho e atenção que ele jamais tivera dos próprios pais.
Linda, a mãe, é estilista de moda e não dá a mínima para Leonard. O pai passara boa parte de sua vida bebendo e se drogando. Sem mais nenhum apego à família ele simplesmente parte para algum canto da Venezuela. Desde muito cedo Leonard se acostumou a viver sozinho. Por isso ele não teme a morte, pois para Leonard todos já estão mortos. Algo curioso é que Leonard chega a essa conclusão observando o cotidiano das pessoas em atitudes comuns. 

"Vocês todos estão usando mais ou menos o mesmo tipo de roupa. Olhem ao redor e verão que é verdade. Agora, imagine que você é o único que não usa uma marca legal. Como isso faz você se sentir? O raio da Nike, as três listras da Adidas, o jogadorzinho de polo em cima do cavalo, a gaivota da Hollister, os símbolos dos times profissionais da Filadélfia, até mesmo o mascote da escola que vocês, atletas, usam quando jogam contra outras escolas; alguns de vocês usam o nosso Mustang na sala de aula, mesmo se não há nenhum evento esportivo programado. Esses são os seus símbolos, o que vocês vestem para provar que sua identidade tem a ver com a identidade dos outros. Muito parecido com os nazistas e sua suástica. Temos um código de vestimenta bem livre, e ainda assim vocês vestem praticamente a mesma coisa. Por quê?"

Outros presentes precisam ser entregues antes que Leonard dê fim a tudo que lhe atormenta. Todos os presentes estão embrulhados em um papel cor-de-rosa, não por um acaso, para compreender o que está detrás de tal simbologia, o leitor deverá ficar atento aos sinais que são apresentados ao longo da narrativa.

É difícil descrever o quanto esta história é grandiosa. Em todos os aspectos Matthew Quick nos convida a refletir sobre como estamos acostumados a viver no piloto automático, agindo como robôs, esquecendo do valor das coisas simples. É pelo olhar clínico de um jovem “problemático” que conseguimos ter a real noção da falta de amor e respeito ao próximo. Como não paramos para ouvir o outro. Talvez, seja esta a premissa mais forte apresentada ao longo da narrativa.

"Não faça isso. Não vá para esse trabalho que você odeia. Faça algo de que goste hoje. Ande de montanha-russa. Nade pelado no mar. Vá para o aeroporto e pegue o próximo voo para qualquer luga apenas por diversão. Gire um globo terrestre, pare-o com o dedo e, em seguida, planeje uma viagem para aquele lugar. Mesmo que seja no meio do oceano, você poderá ir de barco. Coma alguma comida exótica da qual nunca ouviu falar. Pare um estranho e peça a ele para lhe explicar em detalhes seus maiores medos, suas esperanças e aspirações secretas, e em seguida diga-lhe que você se importa. Porque ele é um ser humano. Sente-se na calçada e faça desenhos com giz colorido. Feche os olhos e tente ver o mundo com o seu nariz _ permita que o olfato seja a sua visão. Ponho o sono em dia. Ligue para um velho amigo que você não vê há anos. Arregace as pernas de calça e entre no mar. Assista a um filme estrangeiro. Alimente esquilos. Faça alguma coisa! Qualquer coisa! Porque você inicia uma revolução, uma decisão de cada vez, toda vez que respira. Só não volte para aquele lugar miserável para onde vai todos os dias. Mostre-me que é possível ser adulto e também ser feliz. Por favor."
Leonard não tem amigos, além do velho Walt e do professor de filosofia Herr Silverman. As discussões com o professor em sala de aula sobre o Holocausto proporcionam momentos de grande reflexão tanto para Leonard quanto para nós, leitores que aos poucos ficamos cada vez mais fascinados com a inteligência e perspicácia do personagem.
Apesar de todo seu desequilíbrio emocional Leonard nos passa uma lucidez, uma visão de mundo madura para um jovem de apenas 18 anos. O engraçado é que tive momentos que senti vergonha de ser quem eu era e de como eu me comportava diante das mesmas situações descritas pelo personagem.

Lauren, a jovem pelo qual Leonard nutre uma paixonite é um dos exemplos fortes de determinação e persistência. Ela nos transmite uma sensação de pureza que é praticamente impossível de ser encontrar nos dias atuais. Lauren é uma jovem evangélica que distribuí panfletos na estação de metrô. Pelo menos três vezes por semana Lauren está no mesmo lugar distribuindo doses de esperança aos que passam por ela. É tão engraçado porque quem nunca passou por uma pessoa que passa o dia todo entregando panfletos religiosos ou até mesmo propagandas, e nem sequer deu o mínimo de atenção? Lauren é um sopro de vida para Leonard, o único problema é que ele já perdera a fé na vida.

A única pessoa que Leonard realmente confia é Herr Silverman, mas até mesmo o professor guarda um segredo por baixo das mangas compridas de sua camisa. Leonard não entende o motivo pelo qual o professor nunca usara nenhum tipo de camiseta. O segredo de Herr Silverman é um dos pontos marcantes da história. Mas nada é tão chocante quanto o segredo que Leonard guarda e que faz com que todo o seu sofrimento se justifique.

Matthew Quick tem uma escrita simples, ligeiramente ácida, nua e crua, explorando cada momento com avidez. Precisamos manter o controle para não deixar nada escapar. Cada palavra ganha um peso diferente. 

No momento em que o segredo de Leonard é revelado tive a sensação de que o ar tinha parado de circular. Tudo é tão perturbador que não tenho como descrever a sensação sufocante que senti neste momento. Quando chegamos a esse ponto imaginamos que a história por si só se defina, mas é exatamente o contrário. Conseguimos compreender toda a complexidade que envolve o segredo de Leonard e o motivo pelo qual ele desejara cometer o homicídio-suicídio.

A maestria de Matthew não para por aí. O livro é repleto de notas de rodapé e faz com que o leitor possa conhecer uma história dentro de outra história. Não chega a ser confuso porque o autor dá continuidade aos fatos exemplificando-os de maneira clara e objetiva. Além das notas de rodapé que tornam a narrativa ainda mais rica, o autor explora a criatividade e inteligência de Leonard apresentando cartas que o próprio personagem escrevera para o seu “eu” no futuro. É simplesmente perfeito.


Eu poderia escrever cinco mil palavras para definir o quanto este livro é magnífico em toda sua grandeza de sentimentos, mas ainda assim não seria suficiente. Perdão, Leonard Peacock é um dos livros mais bonitos que já li. Eu poderia descrevê-lo como um livro louco, belo, incrível, fascinante, chocante, encantador, perturbador. Prefiro resumi-los em apenas uma única palavra: PERFEITO.

Perdão, Leonard Peacock é aquele livro que todo mundo precisa ler. É um livro para levar pra vida. Não há como não se sentir modificado de alguma forma. Nunca um abraço significou tanto para mim. Cinco estrelas e favorito, é claro.



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Sinopse: Hoje é o aniversário de Leonard Peacock. Também é o dia em que ele saiu de casa com uma arma na mochila. Porque é hoje que ele vai matar o ex-melhor amigo e depois se suicidar com a P-38 que foi do avô, a pistola do Reich. Mas antes ele quer encontrar e se despedir das quatro pessoas mais importantes de sua vida: Walt, o vizinho obcecado por filmes de Humphrey Bogart; Baback, que estuda na mesma escola que ele e é um virtuose do violino; Lauren, a garota cristã de quem ele gosta, e Herr Silverman, o professor que está agora ensinando à turma sobre o Holocausto. Encontro após encontro, conversando com cada uma dessas pessoas, o jovem ao poucos revela seus segredos, mas o relógio não para: até o fim do dia Leonard estará morto.



Título: Perdão, Leonard Peacock.
Título original: Forgive Me, Leonard Peacock.
Autor: Matthew Quick.
Editora: Intrínseca.
Páginas: 224


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3 comentários

  1. Oie
    Este livro já andou na minha lista de desejados, até tenho o e-book dele, mas não sei pq o meu interesse por ele foi diminuindo, acho que por conta da minha lista enorme de leitura srsrsrs
    Mas agora até me despertou interesse novamente, quem sabe eu o leia, pq o assunto me chama bastante atenção e este autor é ótimo.
    Valeu a dica amiga!!

    Beijinhos

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  2. ola,eu nao tenho muito o habito de ler, mas esse livro, posso dizer que foi o unico que realmente li e em menos de dois dias o que pra mim que nao estou acostumado foi espantoso, eu gostaria de saber se você conhece outros livros com essa tematica, ou parecido com este ????

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