|Resenha| Nem tudo será esquecido - Wendy Walker

segunda-feira, outubro 24, 2016



Começo a resenha de hoje com a sensação de que algo me fora tirado, violentamente, assim como fizeram com Jenny Kramer, a protagonista que fora brutalmente violentada. É óbvio que minha dor não representa nem um por cento comparado ao que Jenny enfrentara após ser estuprada. Minha consternação se dá por não conseguir digerir tamanho sofrimento. Fazendo um trocadilho com o título do livro, definitivamente nada, absolutamente nada nessa história será esquecido. 

Fazia tempo que não lia um livro de suspense, especificamente um thriller psicológico tão impactante. Confesso que não leio tantos livros do gênero quanto gostaria porque não consigo lidar muito bem com o efeito que esse tipo de narrativa me causa. Uma vez ou outra me arrisco e aceito algumas sugestões, mas no caso de Nem tudo será esquecido foi paixão à primeira vista. Assim que tomei conhecimento do lançamento, pensei: _Eu preciso ler esse livro. A capa do livro já nos dá uma noção de que algo profundamente doloroso está por vir. 


Dizer que o livro é assustador é pouco. Nem tudo será esquecido é um dos livros mais incríveis que já li. Wendy Walker cria uma história comovente que provoca as mais perturbadoras sensações que podemos descrever. O livro apresenta um dos temas mais difíceis de serem abordados: a violência sexual – consequentemente, as cicatrizes que marcam o corpo e alma daqueles que passam por algo tão terrível.

Nem tudo será esquecido irá contar a história da jovem Jenny, de apenas 15 anos que fora brutalmente violentada por um psicopata. Não sabemos muito coisa a seu respeito, somente que ele tomara todos os cuidados necessários para que sua identidade não fosse revelada. Tudo fora meticulosamente pensado já que no momento do estupro ele tivera todo o cuidado de usar preservativo, uma máscara para esconder o rosto e, ainda se depilara para não deixar qualquer vestígio que pudesse incriminá-lo. Pense em algo aterrorizante? Pensou? Bem, multiplique isso por dez, pois é preciso muito estômago para absorver a cena do momento em que Jenny é violentada.

De imediato não sabemos quem narra a história e esse mistério se estende ao longo da narrativa até aproximadamente a metade do livro. Isso é curioso pois já nos deixa em alerta desde o primeiro parágrafo. O leitor vai conhecendo Jenny sob a perspectiva desse narrador e vai construindo sua própria teoria sobre o acontecimento. Inicialmente conhecemos os detalhes do fato ocorrido e no transcorrer da narrativa vamos acompanhando o desenrolar de todo esse mistério. 

Jenny vive na pequena cidade de Fairview desde pequena e, por esse motivo, todos a conheciam. A família de Jenny tem um perfil bem tradicional. Cada um tinha uma função bem definida na família. Charlotte, a mãe,  era a responsável por educar os filhos e cuidar da casa. Mas as tarefas de Charlotte não se resumiam aos afazeres domésticos. Ela buscava a ascensão. Frequentava a piscina do clube com o intuito de fazer parte da sociedade. A aparência para Charlotte era tudo.
Já Tom, o pai de Jenny era a doçura em pessoa, sempre preocupado em dar atenção e amor aos filhos. Tom tinha que sustentar a família, ou seja, exercer o papel que compete ao homem na sociedade. A vida dos Kramer era "quase" perfeita, até tudo ruir. A família que até então vivia uma vida aparentemente normal teria pela frente um grande desafio: descobrir quem violentara Jenny e encontrar uma maneira de sobreviver depois de tamanha tragédia.

A primeira coisa a ser feita é apagar da memória de Jenny as lembranças daquele dia terrível. Ao saber da tragédia, os pais de Jenny, aliás Charlotte decide autorizar os médicos a drogarem Jenny como uma droga que é capaz de fazê-la esquecer tudo o que aconteceu. Tom não concorda com essa ideia, mas é Charlotte quem toma a decisão de tudo na vida da família. Tom só deseja descobrir quem fez tamanha crueldade com sua filha e, a partir daí, passa a viver em função disso. A preocupação de Charlotte é legítima apesar de, muitas vezes ela parecer um tanto fria. Charlotte só deseja que Jenny não sofra com as lembranças do estupro. Por isso, toma tal decisão sem nem ao menos se dar conta que, talvez essas memórias sejam importantes para a recuperação de sua filha.

Fiquei bem dividida a princípio. Ao mesmo tempo em que odiava Charlotte por sua frieza e seu comportamento tive vontade de socar Tom pela sua falta de posicionamento. Esperei que ele tomasse frente das coisas e confrontasse Charlotte em relação aos seus sentimentos e atitudes. Mas ao mesmo tempo tive muita pena, de ambos, por estarem naquela situação. É fácil julgar quando se está apenas observando. Ninguém imagina passar por uma situação tão difícil quanto esta. 

“Ninguém a escutou até que estivesse acabado. Ela disse que agora entende que, ao final de cada batalha, restam o conquistador e o conquistado, o vencedor e a vítima, e que aceitara a verdade: ela fora total e irrevogavelmente derrotada.”

Bem, o estupro em si já é um assunto difícil de ser abordado e discutido. Digerir as cenas tão claramente descritas pela autora foi a coisa mais difícil de se fazer. A perversidade, o ato sexual em si nos deixa com aquela sensação de aperto no peito, parece que nos falta ar para seguir adiante. A maneira como Wendy descreve todo o sofrimento de Jenny é comovente. 
Vamos acompanhando o sofrimento de toda a família ao longo das páginas. O narrador destaca a importância de cada um. Todos os personagens são explorados separadamente. Isso é genial porque apesar da história se basear em Jenny, a autora fez com que todos os demais personagens tivessem tamanha importância para que a narrativa pudesse ganhar força.  

A história é muito bem construída. A autora foi extremamente cuidadosa na sua abordagem. O livro fala a respeito de alguns transtornos mentais e explora cada um deles detalhadamente para que até mesmo um leitor leigo saiba do que ela está falando. As doenças descritas ao longo da narrativa servem de base para que possamos conhecer e entender o que se passa na mente de um sociopata/psicopata. A psicologia é discutida e explorada durante toda a narrativa. Percebemos com isso que a autora se ateve com os mínimos detalhes a respeito da ciência. Você fica se perguntando se ela é psicóloga, advogada, perita, ou seja lá qual for sua especialidade para falar de tantas coisas com tamanha propriedade. 

A escrita de Wendy Walker é magnífica. O jeito como ela constrói seus personagens, a maneira como ela os explora, o cuidado em cada detalhe faz com que a narrativa seja tão crível. Nem tudo será esquecido é um daqueles livros que deve ser lido com muita atenção, aos poucos, sem pressa, para que nada passe despercebido pois cada informação é relevante. Fora que não dá pra ler uma história como essa sem atentar para seus efeitos. Até nossa respiração é comprometida tamanha agonia.

Peço desculpas pela falta de informações mais detalhadas a respeito do livro pois não há muito o que dizer caso não queira que spoilers sejam liberados. Tudo no livro é uma incógnita, um mistério a ser revelado, desde quem estuprou Jenny até quem narra a história. O leitor vai lentamente juntamente as peças e somente no final do livro saberá quem é o responsável por violentar Jenny. E posso dizer que o leitor irá se surpreender. Aliás, surpresas ao longo da narrativa não faltarão. Há sempre algo a ser revelado causando espanto e perplexidade. A frieza da autora é o que torna a narrativa verossímil, diferenciada e única. O drama e o suspense dialogam entre si o tempo todo.

A angústia, a dúvida e o sofrimento acompanharão o leitor até o último capítulo. Ao término temos a sensação de que fomos tão violados quanto Jenny tamanho nosso envolvimento com a narrativa. O drama familiar é um dos temas secundários, contudo ele é de extrema importância já que tudo tem uma correlação. A partir do drama vivido por Jenny vamos tomando conhecimento de alguns segredos de família que ganham destaque ao longo da narrativa. Charlotte e Tom são peças fundamentais na história, tirando o fato de serem pais de Jenny, claro. É preciso ficar atento. Cada palavra tem seu peso. A essência do livro vai muito além das palavras ditas. 

O thriller psicológico tem essa capacidade de nos deixar perplexos, amedrontados, confusos. Os sentimentos ficam à flor da pele mesmo. Não sabemos lidar muito bem com esse tipo de história. O ser humano é exposto em toda sua complexidade. A mente daqueles que cometem tamanho ato de crueldade despertam nossa curiosidade. Quantas mulheres, meninas não foram violentadas? Quantas vítimas de tamanha barbaridade não convivem com a sombra de um passado tão doloroso? Escrever sobre algo tão cruel e real é muito difícil e, fazer isso com tamanha seriedade e talento é pra poucos. Por esse e tantos outros motivos Wendy Walker é uma das autoras mais comentadas e reconhecidas nos últimos tempos. Não é à toa que o livro fez um sucesso estrondoso lá fora.

Os fãs do gênero ficarão contentes em saber que a história será levada para o cinema. Yes! Isso mesmo! Não dá pra uma história incrível como essa ficar apenas nas páginas de um livro. E quem irá dirigi-lo será a fodástica Reese Witherspoon em parceria com a Warner Brothers. Já fico imaginando cada detalhe. Certamente será um filmaço!

Nem tudo será esquecido é um dos livros mais brilhantes que já li na minha vida. É um livro que aborda um tema cruel, devastador e que nos deixa sem palavras, definitivamente. Favoritei o livro e espero que a autora possa escrever outras histórias tão incríveis quanto essa. Leiam o livro com cautela, digerindo cada frase, cada palavra com muita atenção para que possam compreendê-lo verdadeiramente. Um livro que ficará para sempre gravado em sua memória. Um relato cruel, perverso e doloroso sobre o estupro e seu efeito devastador.



Um dos suspenses psicológicos mais elogiados nos Estados Unidos Tudo parece perfeito na pequena Fairview, em Connecticut, até a noite em que a adolescente Jenny Kramer é violentada durante uma festa. Nas horas posteriores, ela é medicada com uma droga controversa para que as memórias da violência sejam apagadas. Mas, nas semanas que se seguem, enquanto se cura das dores físicas, Jenny percebe que guardou nuances daquela noite. O pai, obcecado por sua incapacidade de descobrir quem abusou de sua filha, busca justiça, enquanto a mãe tenta fazer de conta de que o crime não abalou seu mundo cuidadosamente construído. Segredos da família e do círculo próximo começam a vir à tona durante a busca incessante pelo monstro que invadiu a comunidade – ou que talvez sempre tenha estado lá –, guiando este thriller psicológico para um fim chocante e inesperado.


Título: Nem Tudo Será Esquecido (All Is Not Forgotten)
Autora: Wendy Walker
Páginas: 288

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1 comentários

  1. Oi, Zilda, sou a tradutora do livro e adorei sua resenha, percebemos que você ficou mesmo imersa na história. Quando a gente traduz, vive a narrativa ainda mais intensamente porque se demora mais nas passagens, fica às vezes 2, 3 meses na companhia dos personagens, do mistério. E nas cenas pesadas sofre ainda mais porque nem pode "passar batido". :)
    Posso te dizer que foi um prazer imenso traduzir esse livro e que querer saber o que aconteceria em seguida me dava ainda mais gás pra continuar trabalhando. Abraços, Maryanne.

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